24.10.06

Lição de vida (pensando o jornalismo)

Em certos dias encontro Erasmo no centro da cidade, quando saio do trabalho. A idéia da última vez que o vi não foi exatamente um plano, como costumava ser, mas sim uma como ele mesmo diz, “lição da vida”.

É inegável que Erasmo tem muito mais experiência que eu. Apesar de ter uma aparência física como a minha, jovem, ele carrega um ar de sabedoria, um ar... Atemporal.

Num desses encontros, naqueles dias típicos de Sampa, que eu apelidei de “misto quente” – tardes quentes e abafadas com manhãs e noites frias – pegamos o metrô na Sé enquanto conversávamos sobre um assunto qualquer, política talvez. Deve ser, pois tocamos no assunto ética em determinado ponto da conversa.

Lembro porque isso marcou a minha primeira eleição. Digo isso porque foi a primeira que eu tentei acompanhar e entender o processo eleitoral. Esse governo ficou manchado por muitos escândalos, que tornaram a política ainda mais turva, ou fétida, ou menos política – disse Erasmo. Tive que concordar.

Foi aí, continuou, que eu aprendi uma grande lição da vida, continuou. Estava desempregado – não por falta de qualificação e sim por opção. Nunca me senti encaixado nesse quebra-cabeça chamado mundo, filosofou. Tive uma formação boa e tudo mais, porém sempre gostei de viver de aventuras. Alguns chamam isso de vadiagem. Enfim, resolvi que iria ser jornalista: escrevo bem, sou minimamente informado sobre muitas coisas, me considero altruísta (... preocupado com o rumo errado das coisas).

Quando terminou essa observação eu já não agüentava mais ficar dentro do vagão – um dos momentos quente do dia: o metrô às 18h30 é lotado (diz a lenda popular que você não precisa fazer força pra entrar no trem), lá as coisas acontecem puramente por inércia. Estávamos na Ana Rosa [uma estação do metrô de Sampa] e faltava apenas uma estação para a Vila Mariana. Vamos descer e ir andando até lá, não agüento mais esse metrô. Claro, porque não, disse Erasmo dando de ombros.

Começamos a andar pela avenida Vergueiro, aquela artéria gigante aonde fluem carros, ônibus e pedestres. Com a proximidade do horário de verão (que já era pra ter começado, mas foi adiado por alguém não sei porque) o dia escurece mais tarde – adoro essa época do ano, disse pra Erasmo.

Eu também. Foi nessa época que resolvi ser jornalista, disse retomando a história. Sabia escrever sobre tudo, mesmo que não soubesse muito sobre esse tudo: tinha informação da grande mídia, é impossível se livrar desse bombardeio de informações, e tinha também a informação dos livros, das aulas e – aí o pulo do gato – informação da mídia alternativa. Dessa forma eu pensava que podia transformar o mundo facilmente. Afinal eu contava com a pluralidade de informação, coisa que muitos estudantes de jornalismo nem sabem o que é (e eu nunca fiz faculdade de jornalismo!) Depois reclamam do mundo e da vida... Completou com ar de indignação.

Só montei um currículo. Mentiroso, é claro. Sabia que tinha capacidade plena para aquilo – isso era só parte dessa aventura. Fiquei um tempo para conseguir uma entrevista que tivesse cara de que iria dar certo: o mercado de trabalho está inchado, até para pedreiro. Eu sei, interrompi, o curso de comunicação é o sexto colocado na concentração de alunos no ensino superior: quase 190 mil. Pra você ver, ele disse.

Antes de sair de casa, era estranho escutar Erasmo falar de casa – parecia que ele não morava em lugar nenhum –, li uma notícia no CMI [Centro de Mídia Independente] sobre os transgênicos. É um tema muito polêmico e se eu fosse escrever alguma coisa sobre isso seria um texto bem raso. Mas de qualquer forma fiquei sabendo da postura dessas empresas, muitas delas transnacionais, em relação às leis do Brasil. Discutir se o transgênico dessas empresas é ou não benéfico é aceitável, mas o desrespeito delas perante a lei não é aceitável. Explico.

Mal reparava nas pessoas sem rosto e sem cor que passavam por mim. Ia prestando atenção no que Erasmo dizia, tentando absorver alguma coisa de bom enquanto passava por pessoas sem cara e sem cor, todas iguais. Olha só, continuou, os caras vem aqui e exploram tudo que podem, até a indecisão do povo que não sabe o que pensar dos transgênicos – pressionam o governo, sujeito ao dinheiro que vem do exterior, para que este permita a produção disso no país. Aí temos a primeira sacanagem. Depois eles não respeitam a distância que uma plantação desse tipo deve ter de áreas de proteção como reservas indígenas ou de florestas – ela deve ser de 10 quilômetros.

Era sobre isso a reportagem: ela contava sobre uma empresa suíça que desrespeitou essa lei e aproveitava para criticar os trangênicos. Dizia também que a tal empresa soltou uma nota para a imprensa, dizendo que não desrespeitava e que estava sendo lesada por uma organização civil que pediu que o lugar fosse transformado numa escola de educação agroambiental. Sacanagem dois: a grande mídia, quando noticiou o fato, defendeu a empresa apenas soltando a nota dela. Fiquei mais convencido de que como jornalista iria contribuir para a pluralidade da informação e combater esse monopólio da grande mídia. Enchi o peito e fui pra entrevista.

Era uma assessoria de imprensa, parte do jornalismo que eu acho sem graça, menos jornalística de todas – vender notícias de uma empresa não é trabalhar com o interesse público. Cheguei na empresa e esperei um “momento, porque a pessoa estava ocupada”, nas palavras da secretária. Era um lugar bem amplo, com cara de grande escritório americano: sem divisórias, com cores claras, salas com parede de vidro e persianas para quando fosse necessário ter privacidade.

Fui chamado à sala da responsável por selecionar os estagiários. Começamos a entrevista e fiquei sabendo que iria trabalhar exclusivamente atendendo a Monsanto, mega transnacional que mexe com transgênicos. Erasmo disse isso com ar grave, e logo entendi porque: precisava do dinheiro – estava desempregado – mas iria trabalhar vendendo uma empresa que sacaneia o país. Fiquei num grande dilema, disse ele.

E agora, vendo a alma pro diabo? E o plano de transformar o mundo pelo teclado de um computador? Se a Monsanto fosse a protagonista daquela notícia, talvez eu fosse o responsável por escrever a nota que saiu na grande imprensa – e isso era incompatível com a minha postura. Acabei me desconcentrando da entrevista. Ainda tive que escrever um texto com informações sobre a empresa, uma espécie de prova de redação. Voltei pra casa tropeçando das calçadas irregulares da cidade.

Dois dias depois recebi a resposta: tinha ido bem na entrevista, em inglês e português, eles gostaram de mim e do meu texto. Mas a vaga era pro período integral e eu montei o currículo como se estudasse de manhã. Respirei aliviado por não ter fazer a escolha eu mesmo, percebi que o mundo não é tão fácil assim: em certas profissões é preciso se vender pra comer pão. Decidi que iria transformar o mundo vendendo perfumes da Boticário, lá não ia encontrar nenhum dilema moral para resolver – a não ser que uma velhinha esquecesse uma maleta com 1 bilhão de reais na loja.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

OI Di

Mto legal o texto... depois eu comento mais com vc!

beijos

4:08 PM  
Blogger madamecarlota said...

BRAVO!
vc faz despertar em mim o pouco do jornalismo que restou nos meus projetos!
vc vai longe querido!

4:48 PM  
Anonymous Anônimo said...

Uma lucidez rara para um pós-modernista, rs. Gostei do texto, Dinha.

5:25 AM  
Anonymous Anônimo said...

Uma lucidez rara para um pós-modernista, rs. Gostei do texto, Dinha.

5:27 AM  

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