5.10.06

Singelo comentário...

Entendo que o Observatório da Imprensa (OI) é um instrumento importantíssimo para a manutenção da pouca liberdade midiática que há. Propõe observações críticas ao chamado quarto poder. É aí que começa o meu comentário.

Não quero ter a pretensão de desdizer jornalistas consagrados, experientes, com muito mais conhecimento que eu posso imaginar agora, na metade do curso de jornalismo. Mas não penso que a imprensa é o quarto poder, apesar de concordar que ela se acha o quarto poder (o que para mim é um problema). “É claro que a mídia influi. Ela é uma força política. É até mais. É uma instância de poder não eleita (...)”, escreveu Mauro Malin num artigo excelente publicado nesse OI no último dia 03/10 (leia o artigo).

Que a mídia influi, influi. Também é uma força política, como qualquer outra organização atuante com alguma voz. Mas que é mais, que é uma instância de poder, eu não concordo. Ela pode dar a notícia da forma que quer e até tem a capacidade de tirar um governo do poder – mas nunca faz isso sozinha. Quem citar o caso Collor eu respondo dizendo que a mídia, em primeiro lugar, foi a bala do revólver que provocou o impeachment – a arma é composta por variados setores da sociedade e o dedo que dispara é o grupo dos poderosos que se sentiram ameaçados ou lesados pelas safadezas do agora senador pelo estado de Alagoas – grande formadora de opinião.

A mídia não é o quarto poder coisa nenhuma e se fosse seria causa de revolta como são os escândalos de corrupção que ela tanto denuncia, pois estaria a serviço de poucos. A sua autonomia é virtual: a dependência da receita de anunciantes e da propaganda oficial não permite movimentos livres. Ou se permitisse a imprensa não teria feito oposição combativa e ferrenha a Lula, esforçando-se ao máximo para provocar e conseguir a sua queda? Outro indicador da falsa independência da mídia é a falta de pluralidade de informação – a dependência das fontes oficiais é gritante e o tom do noticiário, em geral, é o mesmo. A imprensa é uma massa sem forma.

No mínimo não deveria querer ser o quarto poder. O ponto é que quem detém alguma forma de poder quer usá-la em benefício próprio para manutenção desse poder, mesmo que tenha que se submeter a algumas coisas ou não ser o poder mais influente – o que Mauro deixa claro que não é o caso. É uma concepção maquiavélica, mas me parece pertinente, principalmente porque antes se submeter ao interesse público, à tarefa de auxiliá-lo no caminho da história, a imprensa deve se curvar diante dos interesses escusos dos mais poderosos, aos interesses dos grandes anunciantes e interesses individuais do patronato midiático. Querer ser o quarto poder, ou afirmar sê-lo, é incorrer em contradição.

Ser uma forma de poder é se colocar acima de alguma coisa, no comando de alguma coisa – e me parece que a última coisa que a imprensa quer é comandar o povo no sentido da luz, da verdade e isso anula a sua pretensão de ser de fato um poder. Afinal, dependente de tantas coisas ela não pode estar preocupada com o interesse público. Talvez esteja preocupara com o interesse do público, e esse “do” faz uma diferença gigantesca.

Manipula a informação a favor do patronato, dos poderosos, dos anunciantes, do mercado, da avó e do cachorro. Depois responde ao do povo. Se respondesse a ele antes dos outros quem sabe seria o quarto poder... A verdade é que a imprensa é frouxa, insegura e dependente – antes fosse combativa como foi um dia, fato que Mauro Malin também ressalta no seu artigo.

E não é raro escutar as pessoas falarem isso... Se ela, que deveria fazer parte do poder do povo, se constitui como um poder à parte é bom apertar os cintos – o piloto sumiu!

Esse texto rendeu uma boa discussão com o Galez, camarada que sempre entra em polêmicas intermináveis comigo e contribui muito com os textos. Depois da conversa fiquei com medo de colocar o texto aqui - ele me disse que tava cheio de buracos que eu tentei preencher revisando o texto. Mas o objetivo é a polêmica, comentem aí...

P.S.: Vlw Galez!