29.4.07

Vida útil de quem trabalha nos canaviais é menor do que a da minha TV

Esse post vai ser sobre uma notícia que li hoje (ou ontem?) no jornal. Lembre-se que são singelos pensamentos de um estudante de jornalismo.

Cortadores de cana têm vida útil de escravo em SP*

Pressionado a produzir mais, trabalhador atua cerca de 12 anos, como na época da escravidão

Conclusão é de pesquisadora da Unesp; usineiros dizem que estão mudando sistema de contratação e que vão melhorar condições

MAURO ZAFALONDA
REDAÇÃO

O novo ciclo da cana-de-açúcar está impondo uma rotina aos cortadores de cana que, para alguns estudiosos, equipara sua vida útil de trabalho à dos escravos. É o lado perverso de um setor que, além de gerar novos empregos e ser um dos principais responsáveis pela movimentação interna da economia, deve exportar US$ 7 bilhões neste ano.
Ao menos 19 mortes já ocorreram nos canaviais de São Paulo desde meados de 2004, supostamente por excesso de trabalho. Preocupados com as condições de trabalho e com a repercussão das mortes, as usinas estão mudando o sistema de contratação desses trabalhadores, antes terceirizados.
A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, professora livre docente da Unesp (Universidade Estadual Paulista), diz que a busca por maior produtividade obriga os cortadores de cana a colher até 15 toneladas por dia. Esse esforço físico encurta o ciclo de trabalho na atividade. "Nas atuais condições, passaram a ter uma vida útil de trabalho inferior à do período da escravidão", diz.
Nas décadas de 1980 e 1990, o tempo em que o trabalhador do setor ficava na atividade era de 15 anos. A partir de 2000, "já deve estar por volta de 12 anos", diz Moraes Silva. Devido à ação repetitiva e ao esforço físico, "ele começa a ter problemas seriíssimos de coluna, nos pés, câimbras e tendinite", afirma.
Para o historiador Jacob Gorender, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos até 1850, antes da proibição do tráfico de escravos da África. Depois dessa data, os proprietários passaram a cuidar melhor dos escravos, e a vida útil subiu para 15 a 20 anos.Moraes Silva, que desenvolve pesquisa com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) sobre os migrantes cortadores de cana, acaba de voltar do Maranhão e do Piauí, novos pólos de fornecimento de mão-de-obra para São Paulo.
Uma das constatações da professora é que a maior exigência de força física no trabalho está forçando a vinda cada vez maior de jovens.
Aparecida de Jesus Pino Camargo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba (SP), diz que a maioria dos cortadores de cana está na faixa de 25 a 40 anos, mas que há cada vez mais jovens na atividade, com até 18 anos.
Para a pesquisadora, o trabalhador anda de 8 a 9 km por dia, sempre submetido a um grande esforço físico, o que causa sérios problemas à saúde. "Esse trabalho tem provocado uma dilapidação -esse é o termo, não encontro outro- dos trabalhadores", afirma ela.
Moraes Silva, porém, afirma que a situação começa a melhorar. Com pressão do Ministério Público, as usinas estão fazendo exames admissionais e adotaram várias medidas de proteção aos trabalhadores, diz.

*FSP, CADERNO DINHEIRO – 29/04/2007


[Bom, se o lide é a parte “mais importante” da notícia, também será a mais comentada. Por sinal, um lide muito bem feito. O primeiro parágrafo dá a dimensão exata da gravidade da situação. O abismo entre um setor social e outro é do tamanho de 7 bilhões de reais. E esse vão gigantesco (causado por esse “novo ciclo da cana-de-açúcar”, estúpido, que já deu errado uma vez e dará novamente) é cavado por uma imensidão de pessoas que vivem em condições sub-humanas. Irão salvar o planeta do aquecimento global a preço de custo. Quanto altruísmo, não? Um sacrifício que permitirá a continuação da espécie! Mas talvez o sacrifício maior seja mesmo dos usineiros: eles já se preocupam com a situação e estão “mudando o sistema de contratação desses trabalhadores, antes terceirizados”. Acho que ficaria mais apropriado o termo traficados, mas os usineiros são os heróis nacionais. E quem ousaria contestar os heróis pátrios? País exemplar, nacionalismo puro.

Tal superexplorção nos permite comprar um apartamento respeitável de classe média baixa na aldeia global. O presidente dos EUA até veio aqui dar um abraço no nosso. Talvez alguma condolência pelas mortes de, ao menos, 19 escravos no estado de São Paulo. E veja bem, digo escravos porque a pesquisadora diz que estes “trabalhadores” já têm uma vida útil “à do período inferior da escravidão”. Mas não importa, tudo bem, o neoliberalismo tem dessas. Só que, como dizem alguns, eu me contaminei com o “vírus” da esquerda. Um exagero, claro. Eu só acho estranho que a vida útil de trabalho destas pessoas seja menor que a da minha nova televisão.

Way to go, Brazil! País do futuro que perde cada vez mais jovens para o plantio de cana. Em épocas de Pan (um exemplo de como somos organizados para sediar uma Copa do Mundo), podemos dizer que é apenas mais uma modalidade de perder jovens além do vasto mundo do crime, das drogas, das mortes de trânsito. Tem alguns que conseguem virar jogadores de futebol também. Participam do BBB, ganham na mega sena... Sei lá, vivemos numa sociedade que permite mobilidade de classes. Ou não? Dizem que sim, mas acho que estamos engessados.

E tal qual uma criança que quebra o braço e quer jogar bola, esta notícia tem um caráter social, não? De denúncia? De querer quebrar o gesso? Na verdade é só um alerta vazio, pálido, fraco de uma imprensa combalida. Pelo menos incitou o debate aqui neste blog que ninguém lê. Alguém levantou o punho cerrado lá embaixo, na multidão. Que alguém veja, especialmente algum dono de grande jornal. Vai saber ele não resolve me contratar? He.]

24.4.07

E a briga promete esquentar

O senador do PRB pelo Rio de Janeiro Marcelo Crivella e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus propõe mudanças na lei Rouanet de incentivo a cultura. O político quer que as religiões sejam consideradas formas de expressão cultural para que possam receber parcela do orçamento destinado ao incentivo da cultura.

Sabendo que a IURD foi fundada pelo bispo Edir Macedo, dono da TV Record, a pergunta é: com essa alteração na lei a emissora poderia receber dinheiro da Lei Rouanet? A julgar pela manifestação da Rede Glóbulo de Televisão sim, afinal a Globo já deu sinais de insatisfação e de ser contra a medida. No programa do Jô ontem, o âncora fez um comentário editorializado e em tom de deboche contra a medida.

Mais um capítulo da briga que está esquentando a televisão brasileira: Record x Globo. A rede do bispo Macedo já ultrapassa a audiência do SBT em alguns dias e horários e vai se consolidando no segundo lugar entre as emissoras, apesar do doutor Sílvio estar se mobilizando para recuperar o posto perdido.

Olho no lance...

OBS.:
O site do senador Crivella dá a dica: “No Congresso Nacional, tem pautado sua atuação no binômio: justiça para o Rio e redistribuição da renda nacional”. Redistribuição de renda deve ser realmente uma preocupação do bispo. Isso representaria um aumento substancial no recebimento de dízimos. E conseqüentemente um aumento na injeção de dinheiro na Record.

23.4.07

Como funciona a cabeça dos estudantes de jornalismo?

Cara, coincidência é pouco. Este último texto que postei (ler texto Sherlock Holmes, a verdade e o jornalismo) estava escrito há algum tempo, mas só resolvi publicá-lo há pouco. Como se tivesse combinado com Marcos Zibordi, jornalista da Caros Amigos. Na edição de abril, uma das reportagens de capa tentou mapear a cabeça dos estudantes de jornalismo brasileiros. Para minha surpresa, o meu texto se encaixa perfeitamente na matéria de Zibordi. Apesar de não estar completa no site, vale a pena conferir “Como é que funciona a cabeça dos estudantes de jornalismo”.

Como eu acabei de dizer, coincidência é pouco. No dia seguinte ao que eu li a matéria, fiz um curso de jornalismo político no C-se. Sinceramente, esperava muito mais do curso. Mas sempre é possível absorver algo, mesmo das experiências insatisfatórias (por assim dizer). Neste curso aprendi um pouco como é que funcionam os bastidores da política e como os políticos pensam. E também que o cenário exposto por Marcos Zibordi realmente se aproxima muito da realidade. Fiquei contente de não ser um louco paraóico que veio de outro mundo.

Durante o curso o ministrante abordou um tema polêmico: a agenda da imprensa deve ser ditada pelos políticos ou pela própria imprensa? Sou partidário da idéia de que a única forma de conseguirmos alcançar um país mais igual é por meio do jornalismo público, ou seja, de que a imprensa é que deve montar a agenda dos noticiários. Ao dizer isso para o ministrante, que por sinal tem um currículo bem respeitável, escutei algo que me feriu. Acho que machucaria qualquer ego. “É muita ingenuidade pensar que é possível mudar o mundo por meio do jornalismo. É impossível descobrir uma praia virgem”, disse o ministrante. Mas, cara pálida, eu não quero descobrir nada. Está tudo na nossa cara – Sherlock Holmes que o diga! (leia texto abaixo)

Muito pessimismo. Ou pior: muito comodismo. Fiquei indignado. Respondi que estava tudo aí, que se continuarmos seguindo a agenda montada pelos políticos – nada interessados no debate dos problemas sociais do país, os quais eles, políticos, deveriam solucionar – vamos continuar na merda. Mas não adiantou. Ele fugiu do debate com um estudante do terceiro ano de jornalismo. Entendo a situação dele, de profissional que já foi esmagado pelo mercado. Quem sabe um dia ele foi como sou hoje - e nada impede de que um dia eu seja como ele. Mas não foi exatamente por isso que preferi não continuar com a polêmica. Das poucas pessoas presentes no curso, nenhum outro jornalista ou estudante se manifestou sobre o assunto.

Marcos Zibordi está mais certo do que imaginamos.

20.4.07

Sherlock Holmes, a verdade e o Jornalismo

Sherlock Holmes neles!

Há algum tempo me esqueci de que o melhor de fazer uma festa de aniversário: são os presentes. Mas tem que ser uma festa mesmo, onde os amigos mais queridos se reúnem para conversar e não aquelas baladas combinadas num lugar pouco “intimista”. Apesar de algumas delas serem bem legais, as baladas têm uma desvantagem: se você ganha algum presente, ganha menos do que se desse uma festa, por assim dizer, tradicional.

Lembrei disso porque fiz aniversário em fevereiro e meus pais fizeram uma festa pra mim. Foi fantástica, muito legal mesmo. Por essas e outras que eles são foda. O tema da festa (toda boa festa tem um tema) foi boteco. Tentamos recriar um ambiente botecal. Compramos um monte de cerveja, chamamos um amigo para fazer um fundo de violão e voz para que os convidados conversassem. E claro, ganhei alguns presentes.

A maioria dos agrados foram camisas. Ganhei também um DVD que confesso que ainda não assisti. Ganhei também dois livros, um do Arnaldo Jabor e outro um volume com todos os contos do famoso detetive inglês Sherlock Holmes. É uma edição muito bonita, ilustrada e comentada por autoridades no assunto. Nunca tinha lido nenhuma linha dos contos de Arthur Conan Doyle e fiquei fascinado com as histórias e especialmente a capacidade que Sherlock Holmes tem de perceber as coisas mais elementares para solucionar os problemas mais diversos.

É mais do que claro que a capacidade de dedução de Sherlock Holmes é fantasiosa, aumentada a um grau que seria inalcansável a qualquer ser humano que não habite uma história de não-ficção. Mas temos muito que aprender com o detetive inglês. Uma das coisas mais interessantes que Holmes diz é que os casos extraordinários são mais fáceis de resolver do que os menores, pois as variantes são reduzidas. Para o detetive os casos que aparentam maior simplicidade são os que mais merecem atenção, são os mais difíceis de resolver.

A principal lição que posso tirar das leituras dos casos de Holmes é que a verdade está na nossa cara – sempre. Nós que não a percebemos. Quando Watson pergunta ao amigo como ele consegue perceber tantas coisas, fazer as deduções brilhantes que alçaram Holmes a fama, ele responde (e deve ter respondido com uma serenidade acompanhada de um sorriso irônico) que o segredo está em reparar nas coisas. Olhamos, mas não enxergamos. Isso nos impede de perceber as coisas como realmente são. Impede a solução rápida e eficaz de casos de polícia. Impede o conhecimento real das coisas.

A verdade está na nossa cara. Nós que não conseguimos enxergá-la. Olhamos para ela a todo momento, mas não conseguimos entender o que é a verdade. A pobreza, as crianças sem infância, a violência, a fome e tudo o mais que estamos cansados de ver na TV ou no jornal e que não enxergamos quando estamos na rua. Como se a vida fosse um conto de Conan Doyle e estivéssemos esperando Holmes aparecer para dar um jeito nas coisas. Uma cretinice só, uma hipocrisia sem tamanho, uma comodidade absurda. É assim que somos – especialmente nós, jornalistas.

Se eu fosse o coordenador de alguma faculdade de jornalismo tornaria obrigatória a leitura das aventuras de Sherlock Holmes para ver se os estudantes de jornalismo, futuros jornalistas babacas, sem consciência, sem vontade de cumprir a tarefa máxima do jornalismo aprendem a enxergar as coisas; aprendem que citar negociatas e reproduzir declarações não é jornalismo. Para ver se entendem que a vida é real, que aquilo que vemos na rua realmente acontece. Para mostrar que para justificar o nome de jornalista e subverter a realidade é preciso ser questionador, atento às coisas, consciente, integrado, ligado.
Sherlock Holmes neles!

13.4.07

No cio na cidade

Este aí saiu no estilo boêmio – escrito num boteco no centro da cidade depois de fazer uma cagada no trabalho.

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental” (Vinícius de Moraes)

“’Não é possível’, vão gritar-vos, ‘não podeis rebelar-vos: isto significa que dois e dois são quatro! A natureza não vos pede licença; ela não tem nada a ver com os nossos desejos nem com o fato de que as suas leis vos agradem ou não. Deveis aceita-la tal como ela é e, consequentemente, também todos os seus resultados. Um muro é realmente um muro... etc. etc.’ Meu Deus, que tenho eu com as leis da natureza e com a aritmética, se, por algum motivo, não me agradam essas leis e o dois e dois são quatro? Está claro que não romperei esse muro com a testa, se realmente não tiver forças para faze-lo, mas não me conformarei com ele unicamente pelo fato de ter pela frente um muro de pedra e de terem sido insuficientes as minhas forças.” (Dostoiévisk, Memórias do Subsolo, p. 25)

NO CIO NA CIDADE

Trabalho no centro de São Paulo, ao lado da praça da Sé. Também é perto do marco zero da cidade – se a Paulista é o coração financeiro da metrópole, o centro é o centro histórico. Vemos prédios de todas os estilos, clássicos, modernos, cheio de detalhes ou tipo clean. E no meio das ruas estreitas que cruzam avenidas largas podemos ver de tudo e encontrar uma diversidade de gêneros humanos incontável: putas ao lado de promotoras de Justiça, videntes que trabalham nas calçadas (e, acreditem, sempre tem um cliente por lá!), ambulantes que vendem de tesouras de barbeiro, Atlas do estado de São Paulo, controle remotos para todas as TVs, melancias, varal de aço. Também vemos estudantes, estagiários, porteiros de prédios, advogados... Faltaria fôlego para fazer um lista completa dos tipos que passam pelo centrão.

No fim, o que importa é que lá vemos a vida de uma ótica que se aproxima muito da realidade urbana crua. Claro que, mesmo sem saber o número exato de pessoas que passam por lá num dia normal, tenho certeza de que a expressiva maioria das 17 milhões de pessoas que vivem (e neste momento exato vejo uma puta rodar a bolsa na esquina! Nunca tinha visto isso, era quase uma lenda...) em São Paulo não circulam diariamente pelo centro da cidade. Para a surpresa de muitos a periferia é real – sempre escutamos falar dela, mas não a conhecemos minimamente. Isso passa por um problema grave de comunicação, um erro crasso da mídia, mas este assunto é coisa que merece um texto, muitos textos exclusivos para ser tratado aqui.

Mas de qualquer forma o centrão é um belo resumo da realidade. Digo isso porque procuro (linkar o txt) ser subversivo e para conseguir isso preciso conhecer a vida real o melhor possível. Como não circulo pela periferia, o centro da cidade é o melhor lugar para fazer isto. Afinal, em que lugar você pode ver uma promotora de Justiça dividir a calçada com uma puta?

Crianças na rua, adultos sem perspectiva alguma de vida. Malandros encostados nas paredes do fórum de Justiçada praça João Mendes observando trabalhadores honestos indo pegar o ônibus. Ou advogados saindo com seus carrões na frente de mendigos velhos olhando para a parede. Toda a injustiça está estampada no centro da cidade de São Paulo, a devoradora de homens. É o Yin Yang, a dualidade, trialidade, polialidade complexa da vida. Mas isso o cidadão médio não percebe. Não se liga que São Paulo é uma das cidades “mais meditativas do globo”. Ele não tem capacidade crítica e reflexiva para tanto, falta educação para o cidadão médio. O cidadão classe A, como aqueles burocratas do mercado que fazem prospecção de clientes gostam de classificar as pessoas, também não percebe. Seus problemas de negócios tomam a sua cabeça de forma que as evidencias mais claras (link txt do Sherlock Holmes) de como as coisas estão erradas. Apenas o cidadão diferente enxerga estas nuances da vida, e creio que estou dentro deste grupo minoritário. Neste grupo não há restrição de classes, são pessoas meditativas. E um cenário como o centro da cidade merece uma reflexão.

Por isso resolvi sentar neste boteco, na esquina da praça João Mendes. Ao lado de putas, moleques de rua, funcionários de escritório, desocupados. Cigarro aceso, cervejinha na mesa, papel e caneta. Começo a me concentrar para escrever este texto.

Mas, in-felizmente, a vida não é só desgosto. Em alguns aspectos deixo de ser pessimista, melancólico e sou um otimista convicto, me empolgo mesmo. Principalmente sendo um... Pré-adulto de 22 anos.

Eu quero sim ser subversivo, mas refletir as coisas no meio de tanta tentação é difícil. São mulheres de todos os tipos, principalmente nessa mistura doida de gente que tem na panela de pressão do centro. Tem as gatinhas no estilo manhoso, as que são, em geral, menor que você, arrumadinhas, de pele lisa, toda jeitosinha e na medida. Não podemos esquecer, ainda falando das gatinhas, as com cara arisca, safadinha. Outro tipo de mulher são as cavalas, as gostosonas que todo mundo gosta de imaginar. Até algumas feinhas conseguem se salvar, mas só se você gostar de camarão – se tiver alergia, não é recomendável. (Há também as mulheres da vida. Certo que a maioria não prima pelo conceito de beleza, mas sempre encontramos exceções. Agora acabei de ver uma moreninha criminosa – no estilo gatinha manhosa –, bota de couro, calça jeans coladinha num belo par de pernas, magrinha, regatinha justa, cabelo bem preto e bonito. Toda na medida.) E é exatamente aí que está todo o problema: como vou refletir assim? Minha atenção é desviada toda hora – como acabou de acontecer. Me sinto no cio no centro da cidade, é um tormento!

Mas este cio, além de dizer respeito as mulheres diz respeito também a outras coisas que permeiam a vida. Isto só soma com estas tantas coisas que já provocavam uma sensação de desorientação. Fico meio perdido. É tanta informação, um bombardeio constante. Crescimento desenfreado, não há tempo para amadurecer, para ser você mesmo, tempo para amar, para enxergar as coisas, para fazer o bem, para dividir, para tudo. Ritmo frenético de vida. Luta desleal pela sobrevivência – e olha que eu sou favorecido pelo mundo. Estou mais uma vez dentro de um grupo que é minoria. Estes sintomas o cidadão médio e o classe A também não sentem. ("Sim, um homem inteligente do séc XIX precisa e está moralmente obrigado a ser uma criatura eminentemente sem caráter; e uma pessoa de caráter, de ação, deve ser sobretudo limitada" (Dostoiévski - Memórias do Subsolo, p. 17)).Apenas os diferenciados.

Eu poderia concluir que é preciso ter foco na vida. Foco para agüentar tudo isto. Ou para lutar contra tudo isto: foco para ser subversivo, foco (em atitudes justas e nos problemas e soluções) para ser governante, foco nas evidências da grande injustiça e reflexão, muita reflexão. E só vou conseguir me focar nisto tudo se me acalmar, me enamorar. Preciso também ir ao banheiro e para o espanhol. O consolo é que, mesmo depois de ter sido chamado de Zé Pilintra por uma criança de rua, não aceito e me sento perplexo diante do muro de pedra chamado realidade. Se não consigo derrubá-lo com as minhas forças, irei dar a volta nele. E agora vou ao banheiro! (Com ou sem mulher!)

4.4.07

O Sábio cabeleireiro oriental

Esse tal de metrosexualismo é algo que não faz parte da minha jurisprudência. Não significa que eu não seja vaidoso. Significa apenas que não levo o cuidado com a aparência às últimas conseqüências. Cortar cabelo num salão de beleza poderia ser problema pra alguns machões. Mas ser machão também é algo que não faz parte da minha jurisprudência (apesar de que alguns, depois de ler o texto, possam questionar de um modo ou de outro essa última afirmação).

Por isso, hoje aproveitei uma folga lotérica e fui cortar o cabelo – num salão de beleza. E isso é uma experiência alucinante, podem acreditar. É como ser um elefante numa loja de cristais: um ambiente feminino que me desloca completamente. Tudo cheirando a limpeza, todos arrumados e com cara fashion. Aquele salãozinho, nossa, vocês precisavam ver! Um petáculo! E quem cuida dessa atmosfera “y” é ninguém menos que Kazuo, o sábio cabeleireiro oriental.

De procedência japonesa, Kazuo é uma figura pra lá de intrigante. Baixo e magro, tem um rosto de 42 anos de traços finos. O cabelo, claro, um luxo: brilhante e sedoso, nem muito nem pouco volume. O finale fica por conta de uma franjinha na testa que confere um ar de austeridade e jovialidade. O sábio foi o último, em tempos, que conseguiu dominar o meu cabelo, um rebelde sem causa (talvez a grande explicação para o título de sábio). E por isso eu marquei um horário às 4h da tarde, para começar o ano letivo mais apresentável.

Mas acabei que cheguei cedo no salão. Vinte minutos de antecedência – o que representa uma eternidade para ficar esperando o Kazuo e lendo Caras. Entrei no salão na esperança vê-lo parado, sem fazer nada, para me atender logo e sem problemas. Mas encontrei apenas duas mulheres que eu nunca tinha visto lá. Desorientado, perguntei para uma morena (e que beleza de morena: branquinha com o cabelo longo e liso, bem preto, que combinava com uma blusa verde e uma calça fuso preta coladinha...) se o Kazuo estava. Ela olhou pra mim com uma cara de “quê?” e disse não saber dele. Ué, o que ela está fazendo lá então? A outra pessoa era uma senhora loira e de óculos, que olhava umas revistas de moda (ou cabelo, sei lá). Interrompeu brevemente sua busca, olhou pra mim por cima dos óculos e voltou-se para as revistas novamente. Podem ser minhas meias, pensei. Devia ter colocado um par mais novo.

Então me embaracei. Olhei para um lado, olhei pra outro e fiquei parado. Não tinha o que falar. Não tinha para onde olhar. Quase um avestruz tímido: só faltava um lugar para enfiar a cabeça. Preferi ficar parado para não quebrar nenhum cristal.

Quando eu já começava a dar sinais de pânico a secretária-assistente do sábio surgiu descendo de uma escada, como um anjo salvador. Bendita Mara! Me reconheceu e foi chamar o sábio Kazuo, que estava ocupado. Olhei para o lado e a morena me mediu e meu ego subiu. Acho que, apesar das meias, ela gostou da minha ousadia de confundi-la com uma funcionária – mulheres, ah mulheres.

- Vamos lavar o cabelo?
-Ãh? Claro, claro.
Uma coisa ruim, quando vamos em salões de beleza, é lavar o cabelo. Lembro que meu avô me levava para cortar no Jonas: era só sentar na cadeira que ele vinha com aqueles borrifadores, molhava o meu cabelo e pronto. Era só olhar aquela cabeça redonda e calva por uns 10 minutos e ir embora feliz. Mas no Kazuo Hair não, você tem que lavar o cabelo – duas vezes. É um puta pé ficar naquela cadeira meio deitada e com o pescoço incomodando. Enquanto Mara molhava meus cachos aproveitei para passear os olhos pelo recinto. Uns vasos de flores, material para cabelos, um bebedouro, espelhos e cadeiras. Com toda essa paisagem pra admirar logo olhei para o teto e no meio do caminho vi a placa: bronzeamento artificial com chocolate. Achei engraçado aquele negócio, como deveria ser alguém se bronzeando com chocolate? É preciso derreter uma barra de Diamante Negro e espalhar pelo corpo? Que cazzo? Intrigado com essa questão metafísica, comecei a pensar e, instintiva e invariavelmente, olhei para outra direção. E a morena a me olhar. Isso foi coisa do diabo, do demônio, porque me fazer imaginar aquela delícia se bronzeando com chocolate naquela situação? Tive que controlar o meu ego.

- Pronto.
- Ãhn? Claro, claro.

Mara pegou o interfone e deu o recado: Kazuo o cliente está pronto. Colocou em mim aquele roupão anticabelo e me pediu que aguardasse. Alguns longos minutos depois Kazuo surge subindo de uma escada, como quem vinha a mando do demo – não, ele não tinha parado de aprontar comigo. Estava com a mesma cara de sempre, com o mesmo cabelo de sempre, com o mesmo look de sempre: camiseta básica, jeans e havaianas azul. Cumprimentos básicos e simpáticos.

- Oi, Diego. Tudo bom?
- Tuuudo, Kazuo. E com vc?

Sem muito papo, pegou a tesoura e começou a sua obra de arte – como viria a dizer mais tarde. Corte aqui, apara ali. E começou a falar.

- É Diego, esse negócio de clima num é brincadeira não.
- O aquecimento global?
- É, dizem que o mundo não agüenta 50 anos!
- É verdade, né, você viu? Se continuar do jeito que vai, não tem mais volta.
- É garoto, parece que os americanos já têm 15% da Amazônia!
- É, tem que mudar o estilo de vida. Acho que essa é a grande causa desses problemas.

O sábio concordou com a minha afirmação e fiquei lisonjeado. E começou a desfiar elogios sobre os EUA. Mas, pensei, como assim? Disse que deveríamos aprender com quem já errou muito, como os EUA.

- Em 500 anos não conseguiremos alcançá-los.
- E não devemos tentar – disse e reparei na cara de desapontamento do sábio.
- Como não? E desfiou mais elogios e mais elogios.

A conversa começou a me incomodar. Não eram aquele o lugar ou a pessoa ideal para a discussão. Me sentia meio ridículo.

- Você não gostaria de comer só do bom e do melhor? De andar de Porsche e ir nas melhores festas?
- Claro, quem não quer? O negócio é que não podemos seguir o modelo de desenvolvimento e vida deles, se não o mundo num dura 50 anos mesmo.
- Então você é contra a americanização?
- É, mais o menos isso – disse meio embaraçado de contradizer a sabedoria oriental. Se temos que aprender com os erros deles, não podemos continuar com o modelo deles. O país não alcançaria os EUA em 500 e nem deveriam. Por ser um país novo, tem que começar do jeito certo – e o jeito certo não é o exemplo de crescimento dos EUA.
- Ah, mas o modelo deles é o que deu certo.
Não, ele não sacou o problema do aquecimento global. – Bom, mas o mundo vai acabar.
- Mas todos tem que ter do bom e do melhor, como eles.

E eu que estava incomodado com a conversa nem imaginava o quanto iria ficar pior: Kazuo desandou a tecer comentários profundos e a dar conselhos mágicos tirados de livros de auto-ajuda para empresários. O sábio, que parecia uma versão viva de O monge e o executivo ainda alugaria o meu ouvido por muito tempo – e eu pagaria 35 reais pelo pacote corte + papo transcendental. O demo é incansável.

- Porque os americanos são como eu. Eficientes e sofisticados, sabem ganhar dinheiro. São desenvolvidos. Como eu que estava aconselhando uma funcionária – só 22 anos, coitada, e com tantos problemas.

Contou a história da vida da garota pra mim. Não é por nada, mas de filosófico o papo ficou psicológico. Realmente os salões de beleza são importantes disseminadores de conhecimento. Oh, sábio Kazuo!

- Mas eu invisto em pessoas, sou um empresário que investe em potencial humano. Assim a minha empresa cresce, eu lucro e posso parar de trabalhar. Mas não posso estudar, não dá tempo. Por isso eu pago 1.000 reais para uma consultora que vêm trabalhar só quatro dias por mês. E meio período! Imagina, 1.000 reais?

Muito preocupado com a minha vida, Kazuo resolveu contar a história da sua. Como conseguiu sucesso e sair em vários jornais e revistas. Não estudava, mas pagava a consultora – que era quase o mesmo que freqüentar uma universidade.

- Posso trabalhar tranqüilo. Quando ela vem, eu fico em cima e aprendo a corrigir os meus erros. Economizo tempo e otimizo os lucros.

Quanta sapiência. Pena que você vai pagar uma mensalidade por quatro dias de aprendizado que não absorvido. Quanta sapiência.

- Mas é isso, né, Diego? O ser humano sempre quer levar vantagem em tudo – o negócio é o lucro, não é? É natural, estamos está sempre em busca da felicidade. E eu invisto em pessoal humano para quando eu tiver 50 anos não estar como o Boy (é um barbeiro de garagem simples e que cobra oito reais o corte).
- Não acho que seja isso Kazuo, não pode ser. Se estamos sempre felizes não conhecemos a felicidade em si. É preciso ficar triste para ficar feliz. Nem sempre é possível levar vantagem em tudo: por isso que o mundo vai acabar. Muita vantagem em cima de quem pouco tem – respondi pensando que o mundo realmente está em perigo e em como eu soava filosófico.
- Como?, respondeu com cara de quem chupou um limão azedo. Estamos sempre em busca da felicidade. É isso que importa. Eu não gosto de me sentir triste, individualmente falando de mim mesmo. É sério, acho que ninguém gosta. Temos sempre que estar em vantagem e felizes. Temos que aproveitar a vida em cada momento, rir e sorrir sempre e em todas as situações.

Conforme o sábio mestre oriental ia falando, eu ia virando as páginas no rosto dele. Era um livro de auto-ajuda vivo, gesticulando e recitando poemas de um pretenso conhecimento e fórmulas para ser feliz. Jesus, o maior psicólogo que já existiu fica no chinelo perto desse poço de sabedoria.

A situação começou a ficar cômica: não conseguia falar nada nem ficar sério.

- Você e seus pais são ótimas pessoas. Mas dão pouca risada. Tem que rir bastante, ser bem humorado.

Ele, definitivamente, não diria isso se conseguisse ler minha mente. Ou reparar na minha boca contorcida para não rir. A situação, que ficava cômica quase ficou trágica quando ia soltar a gargalhada, e, amigos, minha gargalhada é algo bem peculiar, por assim dizer. Fui salvo por uma alma boa que entrou no salão fazendo barulho e me permitiu desviar o olhar de Kazuo. Engoli a risada e voltei a olhar para ele, que estava com uma cara de “e daí? É ou não é verdade?”. A vontade de rir voltou, mas comecei a pensar nesse texto. Apenas fiquei quieto. Não respondi mais nada, só fazia uma cara de interessado no egocentrismo daquele empreendedor de sucesso.

O corte, que durou quase uma hora e meia (e meu cabelo não estava tão comprido assim), foi muito proveitoso. Saí do salão com a certeza de que estamos condenados e cheio de conselhos. Se o mundo for parecido com o sábio cabeleireiro oriental, leitor de livros esdrúxulos como os de auto-ajuda e um poço de frases de efeito e falsa percepção do que acontece, o efeito estufa é o de menos.
Saí do Kazuo Hair com a orelha inchada – e o cabelo muito curto.