13.4.07

No cio na cidade

Este aí saiu no estilo boêmio – escrito num boteco no centro da cidade depois de fazer uma cagada no trabalho.

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental” (Vinícius de Moraes)

“’Não é possível’, vão gritar-vos, ‘não podeis rebelar-vos: isto significa que dois e dois são quatro! A natureza não vos pede licença; ela não tem nada a ver com os nossos desejos nem com o fato de que as suas leis vos agradem ou não. Deveis aceita-la tal como ela é e, consequentemente, também todos os seus resultados. Um muro é realmente um muro... etc. etc.’ Meu Deus, que tenho eu com as leis da natureza e com a aritmética, se, por algum motivo, não me agradam essas leis e o dois e dois são quatro? Está claro que não romperei esse muro com a testa, se realmente não tiver forças para faze-lo, mas não me conformarei com ele unicamente pelo fato de ter pela frente um muro de pedra e de terem sido insuficientes as minhas forças.” (Dostoiévisk, Memórias do Subsolo, p. 25)

NO CIO NA CIDADE

Trabalho no centro de São Paulo, ao lado da praça da Sé. Também é perto do marco zero da cidade – se a Paulista é o coração financeiro da metrópole, o centro é o centro histórico. Vemos prédios de todas os estilos, clássicos, modernos, cheio de detalhes ou tipo clean. E no meio das ruas estreitas que cruzam avenidas largas podemos ver de tudo e encontrar uma diversidade de gêneros humanos incontável: putas ao lado de promotoras de Justiça, videntes que trabalham nas calçadas (e, acreditem, sempre tem um cliente por lá!), ambulantes que vendem de tesouras de barbeiro, Atlas do estado de São Paulo, controle remotos para todas as TVs, melancias, varal de aço. Também vemos estudantes, estagiários, porteiros de prédios, advogados... Faltaria fôlego para fazer um lista completa dos tipos que passam pelo centrão.

No fim, o que importa é que lá vemos a vida de uma ótica que se aproxima muito da realidade urbana crua. Claro que, mesmo sem saber o número exato de pessoas que passam por lá num dia normal, tenho certeza de que a expressiva maioria das 17 milhões de pessoas que vivem (e neste momento exato vejo uma puta rodar a bolsa na esquina! Nunca tinha visto isso, era quase uma lenda...) em São Paulo não circulam diariamente pelo centro da cidade. Para a surpresa de muitos a periferia é real – sempre escutamos falar dela, mas não a conhecemos minimamente. Isso passa por um problema grave de comunicação, um erro crasso da mídia, mas este assunto é coisa que merece um texto, muitos textos exclusivos para ser tratado aqui.

Mas de qualquer forma o centrão é um belo resumo da realidade. Digo isso porque procuro (linkar o txt) ser subversivo e para conseguir isso preciso conhecer a vida real o melhor possível. Como não circulo pela periferia, o centro da cidade é o melhor lugar para fazer isto. Afinal, em que lugar você pode ver uma promotora de Justiça dividir a calçada com uma puta?

Crianças na rua, adultos sem perspectiva alguma de vida. Malandros encostados nas paredes do fórum de Justiçada praça João Mendes observando trabalhadores honestos indo pegar o ônibus. Ou advogados saindo com seus carrões na frente de mendigos velhos olhando para a parede. Toda a injustiça está estampada no centro da cidade de São Paulo, a devoradora de homens. É o Yin Yang, a dualidade, trialidade, polialidade complexa da vida. Mas isso o cidadão médio não percebe. Não se liga que São Paulo é uma das cidades “mais meditativas do globo”. Ele não tem capacidade crítica e reflexiva para tanto, falta educação para o cidadão médio. O cidadão classe A, como aqueles burocratas do mercado que fazem prospecção de clientes gostam de classificar as pessoas, também não percebe. Seus problemas de negócios tomam a sua cabeça de forma que as evidencias mais claras (link txt do Sherlock Holmes) de como as coisas estão erradas. Apenas o cidadão diferente enxerga estas nuances da vida, e creio que estou dentro deste grupo minoritário. Neste grupo não há restrição de classes, são pessoas meditativas. E um cenário como o centro da cidade merece uma reflexão.

Por isso resolvi sentar neste boteco, na esquina da praça João Mendes. Ao lado de putas, moleques de rua, funcionários de escritório, desocupados. Cigarro aceso, cervejinha na mesa, papel e caneta. Começo a me concentrar para escrever este texto.

Mas, in-felizmente, a vida não é só desgosto. Em alguns aspectos deixo de ser pessimista, melancólico e sou um otimista convicto, me empolgo mesmo. Principalmente sendo um... Pré-adulto de 22 anos.

Eu quero sim ser subversivo, mas refletir as coisas no meio de tanta tentação é difícil. São mulheres de todos os tipos, principalmente nessa mistura doida de gente que tem na panela de pressão do centro. Tem as gatinhas no estilo manhoso, as que são, em geral, menor que você, arrumadinhas, de pele lisa, toda jeitosinha e na medida. Não podemos esquecer, ainda falando das gatinhas, as com cara arisca, safadinha. Outro tipo de mulher são as cavalas, as gostosonas que todo mundo gosta de imaginar. Até algumas feinhas conseguem se salvar, mas só se você gostar de camarão – se tiver alergia, não é recomendável. (Há também as mulheres da vida. Certo que a maioria não prima pelo conceito de beleza, mas sempre encontramos exceções. Agora acabei de ver uma moreninha criminosa – no estilo gatinha manhosa –, bota de couro, calça jeans coladinha num belo par de pernas, magrinha, regatinha justa, cabelo bem preto e bonito. Toda na medida.) E é exatamente aí que está todo o problema: como vou refletir assim? Minha atenção é desviada toda hora – como acabou de acontecer. Me sinto no cio no centro da cidade, é um tormento!

Mas este cio, além de dizer respeito as mulheres diz respeito também a outras coisas que permeiam a vida. Isto só soma com estas tantas coisas que já provocavam uma sensação de desorientação. Fico meio perdido. É tanta informação, um bombardeio constante. Crescimento desenfreado, não há tempo para amadurecer, para ser você mesmo, tempo para amar, para enxergar as coisas, para fazer o bem, para dividir, para tudo. Ritmo frenético de vida. Luta desleal pela sobrevivência – e olha que eu sou favorecido pelo mundo. Estou mais uma vez dentro de um grupo que é minoria. Estes sintomas o cidadão médio e o classe A também não sentem. ("Sim, um homem inteligente do séc XIX precisa e está moralmente obrigado a ser uma criatura eminentemente sem caráter; e uma pessoa de caráter, de ação, deve ser sobretudo limitada" (Dostoiévski - Memórias do Subsolo, p. 17)).Apenas os diferenciados.

Eu poderia concluir que é preciso ter foco na vida. Foco para agüentar tudo isto. Ou para lutar contra tudo isto: foco para ser subversivo, foco (em atitudes justas e nos problemas e soluções) para ser governante, foco nas evidências da grande injustiça e reflexão, muita reflexão. E só vou conseguir me focar nisto tudo se me acalmar, me enamorar. Preciso também ir ao banheiro e para o espanhol. O consolo é que, mesmo depois de ter sido chamado de Zé Pilintra por uma criança de rua, não aceito e me sento perplexo diante do muro de pedra chamado realidade. Se não consigo derrubá-lo com as minhas forças, irei dar a volta nele. E agora vou ao banheiro! (Com ou sem mulher!)

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Legal como sempre hein Di...

mas eu tinha que conversar ao vivo com vc sobre oq eu acho ( se é que interessa o que eu acho, né?)

beijocas

11:16 AM  

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