O Sábio cabeleireiro oriental
Esse tal de metrosexualismo é algo que não faz parte da minha jurisprudência. Não significa que eu não seja vaidoso. Significa apenas que não levo o cuidado com a aparência às últimas conseqüências. Cortar cabelo num salão de beleza poderia ser problema pra alguns machões. Mas ser machão também é algo que não faz parte da minha jurisprudência (apesar de que alguns, depois de ler o texto, possam questionar de um modo ou de outro essa última afirmação).
Por isso, hoje aproveitei uma folga lotérica e fui cortar o cabelo – num salão de beleza. E isso é uma experiência alucinante, podem acreditar. É como ser um elefante numa loja de cristais: um ambiente feminino que me desloca completamente. Tudo cheirando a limpeza, todos arrumados e com cara fashion. Aquele salãozinho, nossa, vocês precisavam ver! Um petáculo! E quem cuida dessa atmosfera “y” é ninguém menos que Kazuo, o sábio cabeleireiro oriental.
De procedência japonesa, Kazuo é uma figura pra lá de intrigante. Baixo e magro, tem um rosto de 42 anos de traços finos. O cabelo, claro, um luxo: brilhante e sedoso, nem muito nem pouco volume. O finale fica por conta de uma franjinha na testa que confere um ar de austeridade e jovialidade. O sábio foi o último, em tempos, que conseguiu dominar o meu cabelo, um rebelde sem causa (talvez a grande explicação para o título de sábio). E por isso eu marquei um horário às 4h da tarde, para começar o ano letivo mais apresentável.
Mas acabei que cheguei cedo no salão. Vinte minutos de antecedência – o que representa uma eternidade para ficar esperando o Kazuo e lendo Caras. Entrei no salão na esperança vê-lo parado, sem fazer nada, para me atender logo e sem problemas. Mas encontrei apenas duas mulheres que eu nunca tinha visto lá. Desorientado, perguntei para uma morena (e que beleza de morena: branquinha com o cabelo longo e liso, bem preto, que combinava com uma blusa verde e uma calça fuso preta coladinha...) se o Kazuo estava. Ela olhou pra mim com uma cara de “quê?” e disse não saber dele. Ué, o que ela está fazendo lá então? A outra pessoa era uma senhora loira e de óculos, que olhava umas revistas de moda (ou cabelo, sei lá). Interrompeu brevemente sua busca, olhou pra mim por cima dos óculos e voltou-se para as revistas novamente. Podem ser minhas meias, pensei. Devia ter colocado um par mais novo.
Então me embaracei. Olhei para um lado, olhei pra outro e fiquei parado. Não tinha o que falar. Não tinha para onde olhar. Quase um avestruz tímido: só faltava um lugar para enfiar a cabeça. Preferi ficar parado para não quebrar nenhum cristal.
Quando eu já começava a dar sinais de pânico a secretária-assistente do sábio surgiu descendo de uma escada, como um anjo salvador. Bendita Mara! Me reconheceu e foi chamar o sábio Kazuo, que estava ocupado. Olhei para o lado e a morena me mediu e meu ego subiu. Acho que, apesar das meias, ela gostou da minha ousadia de confundi-la com uma funcionária – mulheres, ah mulheres.
- Vamos lavar o cabelo?
-Ãh? Claro, claro.
Uma coisa ruim, quando vamos em salões de beleza, é lavar o cabelo. Lembro que meu avô me levava para cortar no Jonas: era só sentar na cadeira que ele vinha com aqueles borrifadores, molhava o meu cabelo e pronto. Era só olhar aquela cabeça redonda e calva por uns 10 minutos e ir embora feliz. Mas no Kazuo Hair não, você tem que lavar o cabelo – duas vezes. É um puta pé ficar naquela cadeira meio deitada e com o pescoço incomodando. Enquanto Mara molhava meus cachos aproveitei para passear os olhos pelo recinto. Uns vasos de flores, material para cabelos, um bebedouro, espelhos e cadeiras. Com toda essa paisagem pra admirar logo olhei para o teto e no meio do caminho vi a placa: bronzeamento artificial com chocolate. Achei engraçado aquele negócio, como deveria ser alguém se bronzeando com chocolate? É preciso derreter uma barra de Diamante Negro e espalhar pelo corpo? Que cazzo? Intrigado com essa questão metafísica, comecei a pensar e, instintiva e invariavelmente, olhei para outra direção. E a morena a me olhar. Isso foi coisa do diabo, do demônio, porque me fazer imaginar aquela delícia se bronzeando com chocolate naquela situação? Tive que controlar o meu ego.
- Pronto.
- Ãhn? Claro, claro.
Mara pegou o interfone e deu o recado: Kazuo o cliente está pronto. Colocou em mim aquele roupão anticabelo e me pediu que aguardasse. Alguns longos minutos depois Kazuo surge subindo de uma escada, como quem vinha a mando do demo – não, ele não tinha parado de aprontar comigo. Estava com a mesma cara de sempre, com o mesmo cabelo de sempre, com o mesmo look de sempre: camiseta básica, jeans e havaianas azul. Cumprimentos básicos e simpáticos.
- Oi, Diego. Tudo bom?
- Tuuudo, Kazuo. E com vc?
Sem muito papo, pegou a tesoura e começou a sua obra de arte – como viria a dizer mais tarde. Corte aqui, apara ali. E começou a falar.
- É Diego, esse negócio de clima num é brincadeira não.
- O aquecimento global?
- É, dizem que o mundo não agüenta 50 anos!
- É verdade, né, você viu? Se continuar do jeito que vai, não tem mais volta.
- É garoto, parece que os americanos já têm 15% da Amazônia!
- É, tem que mudar o estilo de vida. Acho que essa é a grande causa desses problemas.
O sábio concordou com a minha afirmação e fiquei lisonjeado. E começou a desfiar elogios sobre os EUA. Mas, pensei, como assim? Disse que deveríamos aprender com quem já errou muito, como os EUA.
- Em 500 anos não conseguiremos alcançá-los.
- E não devemos tentar – disse e reparei na cara de desapontamento do sábio.
- Como não? E desfiou mais elogios e mais elogios.
A conversa começou a me incomodar. Não eram aquele o lugar ou a pessoa ideal para a discussão. Me sentia meio ridículo.
- Você não gostaria de comer só do bom e do melhor? De andar de Porsche e ir nas melhores festas?
- Claro, quem não quer? O negócio é que não podemos seguir o modelo de desenvolvimento e vida deles, se não o mundo num dura 50 anos mesmo.
- Então você é contra a americanização?
- É, mais o menos isso – disse meio embaraçado de contradizer a sabedoria oriental. Se temos que aprender com os erros deles, não podemos continuar com o modelo deles. O país não alcançaria os EUA em 500 e nem deveriam. Por ser um país novo, tem que começar do jeito certo – e o jeito certo não é o exemplo de crescimento dos EUA.
- Ah, mas o modelo deles é o que deu certo.
Não, ele não sacou o problema do aquecimento global. – Bom, mas o mundo vai acabar.
- Mas todos tem que ter do bom e do melhor, como eles.
E eu que estava incomodado com a conversa nem imaginava o quanto iria ficar pior: Kazuo desandou a tecer comentários profundos e a dar conselhos mágicos tirados de livros de auto-ajuda para empresários. O sábio, que parecia uma versão viva de O monge e o executivo ainda alugaria o meu ouvido por muito tempo – e eu pagaria 35 reais pelo pacote corte + papo transcendental. O demo é incansável.
- Porque os americanos são como eu. Eficientes e sofisticados, sabem ganhar dinheiro. São desenvolvidos. Como eu que estava aconselhando uma funcionária – só 22 anos, coitada, e com tantos problemas.
Contou a história da vida da garota pra mim. Não é por nada, mas de filosófico o papo ficou psicológico. Realmente os salões de beleza são importantes disseminadores de conhecimento. Oh, sábio Kazuo!
- Mas eu invisto em pessoas, sou um empresário que investe em potencial humano. Assim a minha empresa cresce, eu lucro e posso parar de trabalhar. Mas não posso estudar, não dá tempo. Por isso eu pago 1.000 reais para uma consultora que vêm trabalhar só quatro dias por mês. E meio período! Imagina, 1.000 reais?
Muito preocupado com a minha vida, Kazuo resolveu contar a história da sua. Como conseguiu sucesso e sair em vários jornais e revistas. Não estudava, mas pagava a consultora – que era quase o mesmo que freqüentar uma universidade.
- Posso trabalhar tranqüilo. Quando ela vem, eu fico em cima e aprendo a corrigir os meus erros. Economizo tempo e otimizo os lucros.
Quanta sapiência. Pena que você vai pagar uma mensalidade por quatro dias de aprendizado que não absorvido. Quanta sapiência.
- Mas é isso, né, Diego? O ser humano sempre quer levar vantagem em tudo – o negócio é o lucro, não é? É natural, estamos está sempre em busca da felicidade. E eu invisto em pessoal humano para quando eu tiver 50 anos não estar como o Boy (é um barbeiro de garagem simples e que cobra oito reais o corte).
- Não acho que seja isso Kazuo, não pode ser. Se estamos sempre felizes não conhecemos a felicidade em si. É preciso ficar triste para ficar feliz. Nem sempre é possível levar vantagem em tudo: por isso que o mundo vai acabar. Muita vantagem em cima de quem pouco tem – respondi pensando que o mundo realmente está em perigo e em como eu soava filosófico.
- Como?, respondeu com cara de quem chupou um limão azedo. Estamos sempre em busca da felicidade. É isso que importa. Eu não gosto de me sentir triste, individualmente falando de mim mesmo. É sério, acho que ninguém gosta. Temos sempre que estar em vantagem e felizes. Temos que aproveitar a vida em cada momento, rir e sorrir sempre e em todas as situações.
Conforme o sábio mestre oriental ia falando, eu ia virando as páginas no rosto dele. Era um livro de auto-ajuda vivo, gesticulando e recitando poemas de um pretenso conhecimento e fórmulas para ser feliz. Jesus, o maior psicólogo que já existiu fica no chinelo perto desse poço de sabedoria.
A situação começou a ficar cômica: não conseguia falar nada nem ficar sério.
- Você e seus pais são ótimas pessoas. Mas dão pouca risada. Tem que rir bastante, ser bem humorado.
Ele, definitivamente, não diria isso se conseguisse ler minha mente. Ou reparar na minha boca contorcida para não rir. A situação, que ficava cômica quase ficou trágica quando ia soltar a gargalhada, e, amigos, minha gargalhada é algo bem peculiar, por assim dizer. Fui salvo por uma alma boa que entrou no salão fazendo barulho e me permitiu desviar o olhar de Kazuo. Engoli a risada e voltei a olhar para ele, que estava com uma cara de “e daí? É ou não é verdade?”. A vontade de rir voltou, mas comecei a pensar nesse texto. Apenas fiquei quieto. Não respondi mais nada, só fazia uma cara de interessado no egocentrismo daquele empreendedor de sucesso.
O corte, que durou quase uma hora e meia (e meu cabelo não estava tão comprido assim), foi muito proveitoso. Saí do salão com a certeza de que estamos condenados e cheio de conselhos. Se o mundo for parecido com o sábio cabeleireiro oriental, leitor de livros esdrúxulos como os de auto-ajuda e um poço de frases de efeito e falsa percepção do que acontece, o efeito estufa é o de menos.
Saí do Kazuo Hair com a orelha inchada – e o cabelo muito curto.
Por isso, hoje aproveitei uma folga lotérica e fui cortar o cabelo – num salão de beleza. E isso é uma experiência alucinante, podem acreditar. É como ser um elefante numa loja de cristais: um ambiente feminino que me desloca completamente. Tudo cheirando a limpeza, todos arrumados e com cara fashion. Aquele salãozinho, nossa, vocês precisavam ver! Um petáculo! E quem cuida dessa atmosfera “y” é ninguém menos que Kazuo, o sábio cabeleireiro oriental.
De procedência japonesa, Kazuo é uma figura pra lá de intrigante. Baixo e magro, tem um rosto de 42 anos de traços finos. O cabelo, claro, um luxo: brilhante e sedoso, nem muito nem pouco volume. O finale fica por conta de uma franjinha na testa que confere um ar de austeridade e jovialidade. O sábio foi o último, em tempos, que conseguiu dominar o meu cabelo, um rebelde sem causa (talvez a grande explicação para o título de sábio). E por isso eu marquei um horário às 4h da tarde, para começar o ano letivo mais apresentável.
Mas acabei que cheguei cedo no salão. Vinte minutos de antecedência – o que representa uma eternidade para ficar esperando o Kazuo e lendo Caras. Entrei no salão na esperança vê-lo parado, sem fazer nada, para me atender logo e sem problemas. Mas encontrei apenas duas mulheres que eu nunca tinha visto lá. Desorientado, perguntei para uma morena (e que beleza de morena: branquinha com o cabelo longo e liso, bem preto, que combinava com uma blusa verde e uma calça fuso preta coladinha...) se o Kazuo estava. Ela olhou pra mim com uma cara de “quê?” e disse não saber dele. Ué, o que ela está fazendo lá então? A outra pessoa era uma senhora loira e de óculos, que olhava umas revistas de moda (ou cabelo, sei lá). Interrompeu brevemente sua busca, olhou pra mim por cima dos óculos e voltou-se para as revistas novamente. Podem ser minhas meias, pensei. Devia ter colocado um par mais novo.
Então me embaracei. Olhei para um lado, olhei pra outro e fiquei parado. Não tinha o que falar. Não tinha para onde olhar. Quase um avestruz tímido: só faltava um lugar para enfiar a cabeça. Preferi ficar parado para não quebrar nenhum cristal.
Quando eu já começava a dar sinais de pânico a secretária-assistente do sábio surgiu descendo de uma escada, como um anjo salvador. Bendita Mara! Me reconheceu e foi chamar o sábio Kazuo, que estava ocupado. Olhei para o lado e a morena me mediu e meu ego subiu. Acho que, apesar das meias, ela gostou da minha ousadia de confundi-la com uma funcionária – mulheres, ah mulheres.
- Vamos lavar o cabelo?
-Ãh? Claro, claro.
Uma coisa ruim, quando vamos em salões de beleza, é lavar o cabelo. Lembro que meu avô me levava para cortar no Jonas: era só sentar na cadeira que ele vinha com aqueles borrifadores, molhava o meu cabelo e pronto. Era só olhar aquela cabeça redonda e calva por uns 10 minutos e ir embora feliz. Mas no Kazuo Hair não, você tem que lavar o cabelo – duas vezes. É um puta pé ficar naquela cadeira meio deitada e com o pescoço incomodando. Enquanto Mara molhava meus cachos aproveitei para passear os olhos pelo recinto. Uns vasos de flores, material para cabelos, um bebedouro, espelhos e cadeiras. Com toda essa paisagem pra admirar logo olhei para o teto e no meio do caminho vi a placa: bronzeamento artificial com chocolate. Achei engraçado aquele negócio, como deveria ser alguém se bronzeando com chocolate? É preciso derreter uma barra de Diamante Negro e espalhar pelo corpo? Que cazzo? Intrigado com essa questão metafísica, comecei a pensar e, instintiva e invariavelmente, olhei para outra direção. E a morena a me olhar. Isso foi coisa do diabo, do demônio, porque me fazer imaginar aquela delícia se bronzeando com chocolate naquela situação? Tive que controlar o meu ego.
- Pronto.
- Ãhn? Claro, claro.
Mara pegou o interfone e deu o recado: Kazuo o cliente está pronto. Colocou em mim aquele roupão anticabelo e me pediu que aguardasse. Alguns longos minutos depois Kazuo surge subindo de uma escada, como quem vinha a mando do demo – não, ele não tinha parado de aprontar comigo. Estava com a mesma cara de sempre, com o mesmo cabelo de sempre, com o mesmo look de sempre: camiseta básica, jeans e havaianas azul. Cumprimentos básicos e simpáticos.
- Oi, Diego. Tudo bom?
- Tuuudo, Kazuo. E com vc?
Sem muito papo, pegou a tesoura e começou a sua obra de arte – como viria a dizer mais tarde. Corte aqui, apara ali. E começou a falar.
- É Diego, esse negócio de clima num é brincadeira não.
- O aquecimento global?
- É, dizem que o mundo não agüenta 50 anos!
- É verdade, né, você viu? Se continuar do jeito que vai, não tem mais volta.
- É garoto, parece que os americanos já têm 15% da Amazônia!
- É, tem que mudar o estilo de vida. Acho que essa é a grande causa desses problemas.
O sábio concordou com a minha afirmação e fiquei lisonjeado. E começou a desfiar elogios sobre os EUA. Mas, pensei, como assim? Disse que deveríamos aprender com quem já errou muito, como os EUA.
- Em 500 anos não conseguiremos alcançá-los.
- E não devemos tentar – disse e reparei na cara de desapontamento do sábio.
- Como não? E desfiou mais elogios e mais elogios.
A conversa começou a me incomodar. Não eram aquele o lugar ou a pessoa ideal para a discussão. Me sentia meio ridículo.
- Você não gostaria de comer só do bom e do melhor? De andar de Porsche e ir nas melhores festas?
- Claro, quem não quer? O negócio é que não podemos seguir o modelo de desenvolvimento e vida deles, se não o mundo num dura 50 anos mesmo.
- Então você é contra a americanização?
- É, mais o menos isso – disse meio embaraçado de contradizer a sabedoria oriental. Se temos que aprender com os erros deles, não podemos continuar com o modelo deles. O país não alcançaria os EUA em 500 e nem deveriam. Por ser um país novo, tem que começar do jeito certo – e o jeito certo não é o exemplo de crescimento dos EUA.
- Ah, mas o modelo deles é o que deu certo.
Não, ele não sacou o problema do aquecimento global. – Bom, mas o mundo vai acabar.
- Mas todos tem que ter do bom e do melhor, como eles.
E eu que estava incomodado com a conversa nem imaginava o quanto iria ficar pior: Kazuo desandou a tecer comentários profundos e a dar conselhos mágicos tirados de livros de auto-ajuda para empresários. O sábio, que parecia uma versão viva de O monge e o executivo ainda alugaria o meu ouvido por muito tempo – e eu pagaria 35 reais pelo pacote corte + papo transcendental. O demo é incansável.
- Porque os americanos são como eu. Eficientes e sofisticados, sabem ganhar dinheiro. São desenvolvidos. Como eu que estava aconselhando uma funcionária – só 22 anos, coitada, e com tantos problemas.
Contou a história da vida da garota pra mim. Não é por nada, mas de filosófico o papo ficou psicológico. Realmente os salões de beleza são importantes disseminadores de conhecimento. Oh, sábio Kazuo!
- Mas eu invisto em pessoas, sou um empresário que investe em potencial humano. Assim a minha empresa cresce, eu lucro e posso parar de trabalhar. Mas não posso estudar, não dá tempo. Por isso eu pago 1.000 reais para uma consultora que vêm trabalhar só quatro dias por mês. E meio período! Imagina, 1.000 reais?
Muito preocupado com a minha vida, Kazuo resolveu contar a história da sua. Como conseguiu sucesso e sair em vários jornais e revistas. Não estudava, mas pagava a consultora – que era quase o mesmo que freqüentar uma universidade.
- Posso trabalhar tranqüilo. Quando ela vem, eu fico em cima e aprendo a corrigir os meus erros. Economizo tempo e otimizo os lucros.
Quanta sapiência. Pena que você vai pagar uma mensalidade por quatro dias de aprendizado que não absorvido. Quanta sapiência.
- Mas é isso, né, Diego? O ser humano sempre quer levar vantagem em tudo – o negócio é o lucro, não é? É natural, estamos está sempre em busca da felicidade. E eu invisto em pessoal humano para quando eu tiver 50 anos não estar como o Boy (é um barbeiro de garagem simples e que cobra oito reais o corte).
- Não acho que seja isso Kazuo, não pode ser. Se estamos sempre felizes não conhecemos a felicidade em si. É preciso ficar triste para ficar feliz. Nem sempre é possível levar vantagem em tudo: por isso que o mundo vai acabar. Muita vantagem em cima de quem pouco tem – respondi pensando que o mundo realmente está em perigo e em como eu soava filosófico.
- Como?, respondeu com cara de quem chupou um limão azedo. Estamos sempre em busca da felicidade. É isso que importa. Eu não gosto de me sentir triste, individualmente falando de mim mesmo. É sério, acho que ninguém gosta. Temos sempre que estar em vantagem e felizes. Temos que aproveitar a vida em cada momento, rir e sorrir sempre e em todas as situações.
Conforme o sábio mestre oriental ia falando, eu ia virando as páginas no rosto dele. Era um livro de auto-ajuda vivo, gesticulando e recitando poemas de um pretenso conhecimento e fórmulas para ser feliz. Jesus, o maior psicólogo que já existiu fica no chinelo perto desse poço de sabedoria.
A situação começou a ficar cômica: não conseguia falar nada nem ficar sério.
- Você e seus pais são ótimas pessoas. Mas dão pouca risada. Tem que rir bastante, ser bem humorado.
Ele, definitivamente, não diria isso se conseguisse ler minha mente. Ou reparar na minha boca contorcida para não rir. A situação, que ficava cômica quase ficou trágica quando ia soltar a gargalhada, e, amigos, minha gargalhada é algo bem peculiar, por assim dizer. Fui salvo por uma alma boa que entrou no salão fazendo barulho e me permitiu desviar o olhar de Kazuo. Engoli a risada e voltei a olhar para ele, que estava com uma cara de “e daí? É ou não é verdade?”. A vontade de rir voltou, mas comecei a pensar nesse texto. Apenas fiquei quieto. Não respondi mais nada, só fazia uma cara de interessado no egocentrismo daquele empreendedor de sucesso.
O corte, que durou quase uma hora e meia (e meu cabelo não estava tão comprido assim), foi muito proveitoso. Saí do salão com a certeza de que estamos condenados e cheio de conselhos. Se o mundo for parecido com o sábio cabeleireiro oriental, leitor de livros esdrúxulos como os de auto-ajuda e um poço de frases de efeito e falsa percepção do que acontece, o efeito estufa é o de menos.
Saí do Kazuo Hair com a orelha inchada – e o cabelo muito curto.

1 Comments:
É querido... salão é dose... uahuahauhauh haja saco meeesmo!
Adorei o texto Di, já trombei com muita gente-livro-auto-ajuda e sei como dói a vontade de rir (ainda mais com as nossas gargalhadas!)
Pronto... agora coloca maissssssss
beijossss
Mari
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