30.5.07

Não aceite bala de estranhos

Quem, quando criança, nunca escutou este sábio conselho das suas mães? Quando saíamos sozinhos, sempre escutávamos esta recomendação. “Podem colocar drogas filho”, dizia a minha mãe. Aprendi bem isto e nunca aceitei bala de estranhos e, talvez por isso, hoje estou aqui escrevendo esse texto.

Mas nem todos têm a chance de receber este carinho materno. Como Guilherme, que morreu ontem. Com apenas 17 semanas de vida, ele descobriu que o mundo é um lugar nada propício à vida. Descobriu antes que sua mãe, Flávia Silveira da Silva, não percebeu em 25 anos de vida.

Sem saber, Guilherme desrespeitou uma das regras de ouro das mães – aceitou bala de estranhos. Não por opção. Nem por falta de aviso, afinal Flávia não teve a chance de dar esta recomendação ao filho. Pode ser que, no meio dos planos que fazia para o garoto que deveria chegar daqui a cinco meses, a mãe pensasse em dizer isto.

Mas uma troca de tiros em São Bernardo do Campo impediu Flávia de aconselhar o filho sobre isto e uma infinidade de outras coisas. A futura mãe foi atingida por uma bala – que não tinha drogas, mas pólvora – perdida que selou o seu destino e o de Guilherme. Mais uma vida ceifada, mais potencial desperdiçado brutalmente. Mais dor, mais revolta.

Registro, para os meus leitores fantasmas, os meus sentimentos de tristeza.

24.5.07

Canalhice e mais canalhice

E o Lula, hein? Grande líder sindical, primeiro presidente dito de esquerda da história do país. Especialista em reclamar e cobrar soluções que nunca vêm. Chegou ao poder cercado de expectativas e decepcionou. Conseguiu a reeleição – as expectativas excederam os desapontamentos. E mais uma vez, o presidente vai decepcionando.

É só o que podemos dizer da gestão Lula. Especialmente a maioria que o conduziu e o reconduziu ao poder. Operários da Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, estão experimentando bem o governo do povo. Ao ocuparem a instalação para reivindicar direitos despertaram a ira do patronato. E o patrão neste caso é o Lula, que mandou o exército lidar com a situação. Como os ditadores militares faziam nos grandes comícios do ABC no início dos anos 1980.

A semelhança com um estado policial não pode deixar de ser notada nesta situação. O direito de reivindicar e de se manifestar livremente é garantia constitucional. Prefiro me manter a parte da discussão de escândalos e “apagões”. Tais problemas são processos históricos. O que espanta é a delicadeza de um elefante com o ego lá em cima para lidar com a situação no Pará.

Bem disse a associação de magistrados, que não me recordo o nome agora, que algumas posturas do governo são dignas de um governo autoritário. Tal manifestação foi motivada pelo episódio que envolve o ministro do STF Gilmar Mendes e a PF – que vazou o nome de Mendes e causou constrangimento público ao ministro, que classificou o ocorrido como canalhice.

Sem dúvida uma canalhice, prova de que a PF é muitas vezes usada como instrumento político. Uma pena que a associação de magistrados tenha apenas se manifestado em relação ao “episódio Mendes”, quando deveria também – e principalmente – ter se manifestado no caso dos trabalhadores paraenses. Mas os juristas pouco se importam com os trabalhadores.

O espaço dado na mídia para os dois assuntos também é desproporcional. Preocupada com as fofocas do planalto a imprensa se esquece da sua função social e da sua importância no debate público acerca de questões que interessem a maioria. E o exército em cima dos trabalhadores.

E já que estamos falando na mídia, a cobertura da ocupação da USP também é lamentável. Apenas fontes que estão do lado oposto dos estudantes na ocupação da reitoria ganham relevância, sendo os alunos tratados como foras da lei e baderneiros. O que se percebe é justamente o contrário. Os foras da lei, pelo menos moralmente, são o governo de SP, a Justiça que impôs a desocupação e a PM que pode usara força – até desproporcionalmente, como de costume – para retirar os estudantes.

Mesmo dando algum espaço para o sindicato de trabalhadores, para os professores da USP e para um ou outro manifestante, o que tira a força da manifestação, que está justamente na coesão dos alunos, é insuficiente. Prova é que nenhum grande veículo publicou o documento produzido pelos estudantes no qual eles se defendem, explicam sua posição e as suas reivindicações.

Mas é isso mesmo, dr. Gilmar Mendes. A canalhice impera no Brasil. E para nossa infelicidade, ela se estende além do nome do senhor.

7.5.07

Virada Cultural

Não é nenhum furo de reportagem, mas São Paulo é uma das maiores cidades do mundo. Apesar de toda segregação social que existe na cidade, em alguns momentos é possível se sentir como se conhecesse bem toda a vida que pulsa nesse músculo gigante de concreto. Bom, tudo isso é questionável. Mas o que importa é que senti isso ontem, na Virada Cultural.

O evento é feito desde 2004 e na edição deste ano estima-se que, só no primeiro dia de festa, 3,5 milhões de pessoas circularam pela cidade. É muita gente. E gente de todos os tipos, também. Como uma paella ou uma feijoada: uma mistura de elementos culturais incrível.

Foi a primeira vez que fui à Virada Cultural. E me arrependo de não ter ido outras vezes. Apesar de o som estar muito baixo no palco Sé e de realmente muita gente ter ido, o que acabou lotando demais, gostei de mais do evento. Era como se estivesse contagiado por um clima de festa, mesmo cercado por muita miséria. E é quase surreal ir numa festa em São Paulo na praça do centro, como se vivêssemos em Pindamonhangaba: todo mundo foi pra festa no centro da cidade.

Comentei várias vezes com meus amigos esse “clima”. Ele ainda era reforçado pela mistura incontrolável de pessoas – do mendigo que quer cinqüenta centavos para também tomar uma bebida até as patricinhas tirando fotos com seus celulares. Tem a galera moderna, os punks, os gays e as lésbicas, os malandros, os trabalhadores com seus filhos, os espíritos solitários, os bichos-grilo, e a todas as outras pessoas. Inclusive eu, há!

E o centro estava bonito até. Trabalho ao lado dos locais que sediaram os shows e todos os dias me sinto uma melancolia, desânimo ou perplexidade ao passar pela Sé. Ontem não. Estava à vontade, integrado, esquecido dos problemas que acabaram escondidos pela festa. Dei vinho para os catadores de latas. Encontrei muitas pessoas, algumas que nunca esperaria ver.

Houve também brigas. Mas elas não estragaram a aura do evento para mim. Eu já tinha ido embora, fiquei sabendo pela internet. Nada de anormal: foi como um conto de fadas. Entrei num mundo fantástico de alegria e fechei o livro antes da confusão. Como quando lemos as notícias no jornal, tudo muito distante.

E no ano que vem tem virada cultural de novo!