30.5.07

Não aceite bala de estranhos

Quem, quando criança, nunca escutou este sábio conselho das suas mães? Quando saíamos sozinhos, sempre escutávamos esta recomendação. “Podem colocar drogas filho”, dizia a minha mãe. Aprendi bem isto e nunca aceitei bala de estranhos e, talvez por isso, hoje estou aqui escrevendo esse texto.

Mas nem todos têm a chance de receber este carinho materno. Como Guilherme, que morreu ontem. Com apenas 17 semanas de vida, ele descobriu que o mundo é um lugar nada propício à vida. Descobriu antes que sua mãe, Flávia Silveira da Silva, não percebeu em 25 anos de vida.

Sem saber, Guilherme desrespeitou uma das regras de ouro das mães – aceitou bala de estranhos. Não por opção. Nem por falta de aviso, afinal Flávia não teve a chance de dar esta recomendação ao filho. Pode ser que, no meio dos planos que fazia para o garoto que deveria chegar daqui a cinco meses, a mãe pensasse em dizer isto.

Mas uma troca de tiros em São Bernardo do Campo impediu Flávia de aconselhar o filho sobre isto e uma infinidade de outras coisas. A futura mãe foi atingida por uma bala – que não tinha drogas, mas pólvora – perdida que selou o seu destino e o de Guilherme. Mais uma vida ceifada, mais potencial desperdiçado brutalmente. Mais dor, mais revolta.

Registro, para os meus leitores fantasmas, os meus sentimentos de tristeza.