3.7.07

INFERNO DE QUERUBINS

Temos olhos, mas não enxergamos as coisas. Não chegamos nem perto de enxergá-las devidamente. Se todos que de alguma forma rezam no mundo pedissem para o seu respectivo deus um par de óculos para hipermetropia acho que a salvação que tantos querem chegaria, imponentemente, na forma de um óculos de grau.

Qualquer um que não seja literalmente cego tem que concordar comigo. Basta dar uma olhada mais atenta ao seu redor, reparar bem nas pessoas, nas roupas, nas caras e feições. Especialmente nas feições. Muitas vezes a cara bem barbeada e a roupa impecável estão estampadas em rostos com traços tristes e sofridos, vazios.

Experimente observar o que há a sua volta, enxergar melhor as coisas. Somos marcados pelo individualismo, é como se vivêssemos em uma bolha de silício que flutua pelo mundo. Totalmente à parte, acostumados com som mp3 ambiente e coca-cola gelada. Lemos o jornal e vemos manchetes absurdas enquanto tomamos café para ir trabalhar. Não peço aqui que largue o seu respeitável emprego para ser um revolucionário sonhador, como gosta de taxar a mída os que se sentem sufocados e se incomodam em respirar essa atmosfera de medo e pobreza.

Aliás, se você tiver algum medo de se tornar um revolucionário sonhador é melhor continuar na sua bolha de astronauta. Pois se resolver olhar melhor à sua volta pode ver coisas horrendas. Como a que eu vi outro dia.

Saí do trabalho, no centro da cidade de São Paulo, coração gigante e negro de um corpo doente chamado Brasil. Às seis horas a Praça da Sé, onde pego o metrô para ir embora, é uma melancolia só. A disparidade entre os mundos que freqüentam aquele lugar e que respiram o mesmo ar é tão grande que muitas vezes chega a ser cômica. Como dizem, é rir para não chorar. Mas não podemos rir de tudo. Isso é estupidez.

Enquanto prostituas marcam ponto, respeitáveis advogadas pegam seus carros para irem para os seus confortáveis lares. A puta fica ali mesmo, passando frio com os peitos quase de fora. A vida inteira foi dura. O que é um mamilo duro de frio para ganhar a vida? Velhas malucas gritam com seus pais e ninguém dá a mínima atenção. "Mora na rua, pobre velha maluca. Chegou a conhecer seu pai algum dia?"

Não me importo e, como todos os outros, sigo o caminho iluminado por luzes amarelas que refletem nos muros pálidos da catedral da Sé e borram a paisagem, como num esforço para apagar tudo aquilo. Mas é impossível. A angústia me persegue e penso se ela também persegue os outros. Se, como eu, eles escrevem para exorcizar esses fantasmas. Fico absorvido pelo pensamento e o que era borrão vira névoa, toma ares de sonho ou pesadelo.

O sentimento ruim cresce, num pavor que culmina com uma visão mais perturbante ainda. Mas não, não era o chupa-cabras ou o homem do saco. Na verdade, vemos uma cena que se repete diariamente – menos nas nossas bolhas. Era uma criança de rua, parada na frente de uma lanchonete. Só isso, nada de mais.

Mas experimente observar as coisas. Foi o que fiz no momento: reparei bem na criança. Nas sandálias gastas, na perna magra e toda arranhada, na bermuda bege e suja que se fundia com o seu corpo. No moletom vermelho e surrado. Na cara preta, nas narinas abertas e no olhar. Na expressão de raiva ou ódio ou dor ou carência. Por que uma criança tinha aquele olhar? Estava apenas à espreita, esperando um desavisado ou desavisada da sua desgraça passar para dar o bote. Pode ser que ele não cometesse nenhum crime como pensei, mas somos induzidos a isso. E a telinha da nossa bolha nos mostra isso.

Mas não mostra porque aquela criança tem o olhar de um malandro. Nem porque o malandro tem olhar de malandro. É como se tudo fosse assim e pronto. E não é. Como vive aquela criança, morando em um banco de praça, cobiçando algo que não terá – roupa, conforto, comida, família.

Tomei outra direção e desci as escadas do metrô, pensando a que ponto a coisa chegou: se as crianças, os querubins, vivem no inferno, onde nós vivemos? Ou melhor, achamos que vivemos em que lugar? Nesse ritmo frenético de vida, em que buscamos viver mais para sofrer mais, as coisas passam desapercebidas. Vou começar a rezar para deus mandar um óculos de grau.