17.10.06

Testando a polícia

Ando meio atarefado...então vou colocar esse texto que fiz agora, sem muitas delongas. Fica só o devaneio mesmo...

TESTANDO A POLÍCIA

Erasmo era um cara muito imaginativo. Dois minutos sem fazer nada que ocupasse a mente e ele já começava a divagar sobre alguma coisa. Se passava por alguém vestido de preto e com correntes pensava como era a vida daquela pessoa – gótica? como são os amigos dessa pessoa? e os pais? e...? Podia ser uma ambulância também: será que tem alguém mesmo doente lá dentro ou o motorista só quer fugir do trânsito? Será que ele é querido por alguém e esse alguém sabe que ele está em uma ambulância? Ou qual seria o problema dele?

Quando não era uma situação dada, Erasmo criava uma. Algum plano mirabolante, uma sacada incrível, uma idéia simples para alguma coisa qualquer. Outro estava na Lins de Vasconcelos, às seis e meia da tarde de um dia que é a cara de uma cidade como São Paulo: cinza, com as quatro estações do ano, com jeito de quem não fode nem sai de cima. Ia caminhando, observando o movimento da rua até que alguma idéia chegasse a sua cabeça.

Se lembrou de outro dia, quando estava na Rio Branco e passou em frente a um quartel da Polícia, instalado num palacete da época em que os barões do café moravam por ali. Da janela do carro viu, em frente ao portão do quartel, uma viatura de uma empresa de segurança particular. Era tempo dos ataques do PCC, pensou logo na situação policial da cidade – que merda, um carro de segurança privada na frente da Polícia Militar? Onde esse mundo vai para? Pensou e em seguida trancou a porta com medo de algum trombadinha da Praça Duque de Caxias.

Com ele era assim: surgiam coisas do nada, que iam e depois voltavam – do nada também. Estava a caminho do curso de inglês, que fica do lado da estação de metrô da Vila Mariana. Divagou de si para si sobre como as coisas estavam pretas: o PCC acua a polícia, as pessoas recorrem a seguranças privados que também não oferecem segurança alguma, alguns deles podem até ser comparsas dos bandidos. E quem não tem como pagar pela segurança que devia ser pública? É, na vida tem que saber rebolar, pensou.

Aí veio a sacada: vou testar a polícia. Como? Nesse momento estava chegando no metrô, horário de grande movimento. O lugar é bem policiado. Mas tem alguns lugares da estação escuros, que poderiam muito bem servir de palco para um assalto, pensou. Mas fugiria pra onde? A redondeza é lotada de gente, não tem pra onde correr ou onde se esconder. Embaixo de uma árvore pensou – “vou roubar alguém e correr pro metrô”. Olhou para o lado e viu uma senhora gorda segurando uma bolsinha e não teve dúvida: agarrou a bolsa e saiu correndo.

A velha não sabia o que fazer, olhou para um lado olhou para o outro e pôs a mão na boca. Não gritou, nem correu, nem chorou. Só ficou lá, atônita. Correu rápido, desceu as escadas da estação correndo e quando terminou começou a andar normalmente, a única coisa é que estava segurando uma bolsa florida – mas até aí nada, quanta bizarrice a gente não vê por aí? Ainda deu tempo de escutar alguém gritar: “pega, pega!”. Mas agora já era.

Desceu na estação Paraíso, umas duas depois da Vila Mariana sentido Tucuruvi. Lá é outro lugar bem policiado, sempre tem viatura para lá, pensou. Bom lugar pra testar a eficiência da polícia – se não a eficiência pelo menos a comunicação.

Ficou com medo, mas decidiu passar na frente dos guardas.
- E, você!
Erasmo parou, engoliu o coração e olhou para o lado – era o policial que fala com ele.
- Oi – respondeu seco.
O homem tinha a cara amarrada, parecia endurecida por algum verniz ou sei lá.
- Que horas são?
- Quase sete.
O policial agradeceu com a cabeça e voltou a fazer o que tinha parado.
Erasmo seguiu caminho. Acordou quando o vigia o cumprimentou. Foi estudar sem confiança nenhuma na polícia. Não conseguem defender nem a eles mesmos, imagina uma velhinha. É melhor nem colocar meu plano em prática, pensou já em inglês.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Di, ficou mto mto bacana esse texto, adorei!
Tá de parabénssss

beijoss

2:09 PM  

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