24.10.06

Lição de vida (pensando o jornalismo)

Em certos dias encontro Erasmo no centro da cidade, quando saio do trabalho. A idéia da última vez que o vi não foi exatamente um plano, como costumava ser, mas sim uma como ele mesmo diz, “lição da vida”.

É inegável que Erasmo tem muito mais experiência que eu. Apesar de ter uma aparência física como a minha, jovem, ele carrega um ar de sabedoria, um ar... Atemporal.

Num desses encontros, naqueles dias típicos de Sampa, que eu apelidei de “misto quente” – tardes quentes e abafadas com manhãs e noites frias – pegamos o metrô na Sé enquanto conversávamos sobre um assunto qualquer, política talvez. Deve ser, pois tocamos no assunto ética em determinado ponto da conversa.

Lembro porque isso marcou a minha primeira eleição. Digo isso porque foi a primeira que eu tentei acompanhar e entender o processo eleitoral. Esse governo ficou manchado por muitos escândalos, que tornaram a política ainda mais turva, ou fétida, ou menos política – disse Erasmo. Tive que concordar.

Foi aí, continuou, que eu aprendi uma grande lição da vida, continuou. Estava desempregado – não por falta de qualificação e sim por opção. Nunca me senti encaixado nesse quebra-cabeça chamado mundo, filosofou. Tive uma formação boa e tudo mais, porém sempre gostei de viver de aventuras. Alguns chamam isso de vadiagem. Enfim, resolvi que iria ser jornalista: escrevo bem, sou minimamente informado sobre muitas coisas, me considero altruísta (... preocupado com o rumo errado das coisas).

Quando terminou essa observação eu já não agüentava mais ficar dentro do vagão – um dos momentos quente do dia: o metrô às 18h30 é lotado (diz a lenda popular que você não precisa fazer força pra entrar no trem), lá as coisas acontecem puramente por inércia. Estávamos na Ana Rosa [uma estação do metrô de Sampa] e faltava apenas uma estação para a Vila Mariana. Vamos descer e ir andando até lá, não agüento mais esse metrô. Claro, porque não, disse Erasmo dando de ombros.

Começamos a andar pela avenida Vergueiro, aquela artéria gigante aonde fluem carros, ônibus e pedestres. Com a proximidade do horário de verão (que já era pra ter começado, mas foi adiado por alguém não sei porque) o dia escurece mais tarde – adoro essa época do ano, disse pra Erasmo.

Eu também. Foi nessa época que resolvi ser jornalista, disse retomando a história. Sabia escrever sobre tudo, mesmo que não soubesse muito sobre esse tudo: tinha informação da grande mídia, é impossível se livrar desse bombardeio de informações, e tinha também a informação dos livros, das aulas e – aí o pulo do gato – informação da mídia alternativa. Dessa forma eu pensava que podia transformar o mundo facilmente. Afinal eu contava com a pluralidade de informação, coisa que muitos estudantes de jornalismo nem sabem o que é (e eu nunca fiz faculdade de jornalismo!) Depois reclamam do mundo e da vida... Completou com ar de indignação.

Só montei um currículo. Mentiroso, é claro. Sabia que tinha capacidade plena para aquilo – isso era só parte dessa aventura. Fiquei um tempo para conseguir uma entrevista que tivesse cara de que iria dar certo: o mercado de trabalho está inchado, até para pedreiro. Eu sei, interrompi, o curso de comunicação é o sexto colocado na concentração de alunos no ensino superior: quase 190 mil. Pra você ver, ele disse.

Antes de sair de casa, era estranho escutar Erasmo falar de casa – parecia que ele não morava em lugar nenhum –, li uma notícia no CMI [Centro de Mídia Independente] sobre os transgênicos. É um tema muito polêmico e se eu fosse escrever alguma coisa sobre isso seria um texto bem raso. Mas de qualquer forma fiquei sabendo da postura dessas empresas, muitas delas transnacionais, em relação às leis do Brasil. Discutir se o transgênico dessas empresas é ou não benéfico é aceitável, mas o desrespeito delas perante a lei não é aceitável. Explico.

Mal reparava nas pessoas sem rosto e sem cor que passavam por mim. Ia prestando atenção no que Erasmo dizia, tentando absorver alguma coisa de bom enquanto passava por pessoas sem cara e sem cor, todas iguais. Olha só, continuou, os caras vem aqui e exploram tudo que podem, até a indecisão do povo que não sabe o que pensar dos transgênicos – pressionam o governo, sujeito ao dinheiro que vem do exterior, para que este permita a produção disso no país. Aí temos a primeira sacanagem. Depois eles não respeitam a distância que uma plantação desse tipo deve ter de áreas de proteção como reservas indígenas ou de florestas – ela deve ser de 10 quilômetros.

Era sobre isso a reportagem: ela contava sobre uma empresa suíça que desrespeitou essa lei e aproveitava para criticar os trangênicos. Dizia também que a tal empresa soltou uma nota para a imprensa, dizendo que não desrespeitava e que estava sendo lesada por uma organização civil que pediu que o lugar fosse transformado numa escola de educação agroambiental. Sacanagem dois: a grande mídia, quando noticiou o fato, defendeu a empresa apenas soltando a nota dela. Fiquei mais convencido de que como jornalista iria contribuir para a pluralidade da informação e combater esse monopólio da grande mídia. Enchi o peito e fui pra entrevista.

Era uma assessoria de imprensa, parte do jornalismo que eu acho sem graça, menos jornalística de todas – vender notícias de uma empresa não é trabalhar com o interesse público. Cheguei na empresa e esperei um “momento, porque a pessoa estava ocupada”, nas palavras da secretária. Era um lugar bem amplo, com cara de grande escritório americano: sem divisórias, com cores claras, salas com parede de vidro e persianas para quando fosse necessário ter privacidade.

Fui chamado à sala da responsável por selecionar os estagiários. Começamos a entrevista e fiquei sabendo que iria trabalhar exclusivamente atendendo a Monsanto, mega transnacional que mexe com transgênicos. Erasmo disse isso com ar grave, e logo entendi porque: precisava do dinheiro – estava desempregado – mas iria trabalhar vendendo uma empresa que sacaneia o país. Fiquei num grande dilema, disse ele.

E agora, vendo a alma pro diabo? E o plano de transformar o mundo pelo teclado de um computador? Se a Monsanto fosse a protagonista daquela notícia, talvez eu fosse o responsável por escrever a nota que saiu na grande imprensa – e isso era incompatível com a minha postura. Acabei me desconcentrando da entrevista. Ainda tive que escrever um texto com informações sobre a empresa, uma espécie de prova de redação. Voltei pra casa tropeçando das calçadas irregulares da cidade.

Dois dias depois recebi a resposta: tinha ido bem na entrevista, em inglês e português, eles gostaram de mim e do meu texto. Mas a vaga era pro período integral e eu montei o currículo como se estudasse de manhã. Respirei aliviado por não ter fazer a escolha eu mesmo, percebi que o mundo não é tão fácil assim: em certas profissões é preciso se vender pra comer pão. Decidi que iria transformar o mundo vendendo perfumes da Boticário, lá não ia encontrar nenhum dilema moral para resolver – a não ser que uma velhinha esquecesse uma maleta com 1 bilhão de reais na loja.

17.10.06

Testando a polícia

Ando meio atarefado...então vou colocar esse texto que fiz agora, sem muitas delongas. Fica só o devaneio mesmo...

TESTANDO A POLÍCIA

Erasmo era um cara muito imaginativo. Dois minutos sem fazer nada que ocupasse a mente e ele já começava a divagar sobre alguma coisa. Se passava por alguém vestido de preto e com correntes pensava como era a vida daquela pessoa – gótica? como são os amigos dessa pessoa? e os pais? e...? Podia ser uma ambulância também: será que tem alguém mesmo doente lá dentro ou o motorista só quer fugir do trânsito? Será que ele é querido por alguém e esse alguém sabe que ele está em uma ambulância? Ou qual seria o problema dele?

Quando não era uma situação dada, Erasmo criava uma. Algum plano mirabolante, uma sacada incrível, uma idéia simples para alguma coisa qualquer. Outro estava na Lins de Vasconcelos, às seis e meia da tarde de um dia que é a cara de uma cidade como São Paulo: cinza, com as quatro estações do ano, com jeito de quem não fode nem sai de cima. Ia caminhando, observando o movimento da rua até que alguma idéia chegasse a sua cabeça.

Se lembrou de outro dia, quando estava na Rio Branco e passou em frente a um quartel da Polícia, instalado num palacete da época em que os barões do café moravam por ali. Da janela do carro viu, em frente ao portão do quartel, uma viatura de uma empresa de segurança particular. Era tempo dos ataques do PCC, pensou logo na situação policial da cidade – que merda, um carro de segurança privada na frente da Polícia Militar? Onde esse mundo vai para? Pensou e em seguida trancou a porta com medo de algum trombadinha da Praça Duque de Caxias.

Com ele era assim: surgiam coisas do nada, que iam e depois voltavam – do nada também. Estava a caminho do curso de inglês, que fica do lado da estação de metrô da Vila Mariana. Divagou de si para si sobre como as coisas estavam pretas: o PCC acua a polícia, as pessoas recorrem a seguranças privados que também não oferecem segurança alguma, alguns deles podem até ser comparsas dos bandidos. E quem não tem como pagar pela segurança que devia ser pública? É, na vida tem que saber rebolar, pensou.

Aí veio a sacada: vou testar a polícia. Como? Nesse momento estava chegando no metrô, horário de grande movimento. O lugar é bem policiado. Mas tem alguns lugares da estação escuros, que poderiam muito bem servir de palco para um assalto, pensou. Mas fugiria pra onde? A redondeza é lotada de gente, não tem pra onde correr ou onde se esconder. Embaixo de uma árvore pensou – “vou roubar alguém e correr pro metrô”. Olhou para o lado e viu uma senhora gorda segurando uma bolsinha e não teve dúvida: agarrou a bolsa e saiu correndo.

A velha não sabia o que fazer, olhou para um lado olhou para o outro e pôs a mão na boca. Não gritou, nem correu, nem chorou. Só ficou lá, atônita. Correu rápido, desceu as escadas da estação correndo e quando terminou começou a andar normalmente, a única coisa é que estava segurando uma bolsa florida – mas até aí nada, quanta bizarrice a gente não vê por aí? Ainda deu tempo de escutar alguém gritar: “pega, pega!”. Mas agora já era.

Desceu na estação Paraíso, umas duas depois da Vila Mariana sentido Tucuruvi. Lá é outro lugar bem policiado, sempre tem viatura para lá, pensou. Bom lugar pra testar a eficiência da polícia – se não a eficiência pelo menos a comunicação.

Ficou com medo, mas decidiu passar na frente dos guardas.
- E, você!
Erasmo parou, engoliu o coração e olhou para o lado – era o policial que fala com ele.
- Oi – respondeu seco.
O homem tinha a cara amarrada, parecia endurecida por algum verniz ou sei lá.
- Que horas são?
- Quase sete.
O policial agradeceu com a cabeça e voltou a fazer o que tinha parado.
Erasmo seguiu caminho. Acordou quando o vigia o cumprimentou. Foi estudar sem confiança nenhuma na polícia. Não conseguem defender nem a eles mesmos, imagina uma velhinha. É melhor nem colocar meu plano em prática, pensou já em inglês.

7.10.06

Meu amigo astronauta

Acho que uma das coisas que mais gosto na televisão é a hora do intervalo. Nenhuma novidade até aí: o canal Multishow exibe o “Na hora do intervalo” com comerciais do mundo inteiro. Certo que só assisto quando passo pelo canal, o que já é coisa rara, e esbarro nele por acaso. Mas curto “analisar” as vinhetas e decidir se são boas ou ruins.

A propaganda feita no Brasil é considerada uma das melhores do mundo. Isso acaba reforçando o senso comum que afirma que o brasileiro é muito criativo, o que alimenta a idéia de que o brasileiro é malandro: todo malandro tem que ser criativo para se virar. Mas não vou prosseguir com esse tratado sociológico, quero falar de publicidade.

Gosto dos comerciais por causa das “sacadas”. Pra citar uma, a do Sedex, dos Correios. Um pequeno empresário, no seu escritório simples e arrumadinho, fala com um comprador pelo telefone. Ele exalta a sua frota, diz que ela alcança o Brasil inteiro e que chega rápido. O comerciante então fecha negócio. Contente, o empresário vai até a janela e dá um grito pra uma pessoa que mexe num apiário: “O Zé [algum nome assim], empacota mais um lote logo, homi!”.

Achei uma boa “sacada” essa – fazer propaganda em que um pequeno empresário se dá bem graças ao serviço oferecido pela empresa: a possibilidade dele sair do quintal e crescer junto com empresa, não é preciso ter uma frota, a empresa tem uma muito boa. Legal, muito legal. Espero que tenha me feito claro, mas se vocês também gostam da hora do intervalo fiquem atentos a essa. Eu, grande autoridade de publicidade e propaganda, recomendo!


Aliás, se fosse autoridade mesmo e tivesse que dar um prêmio a um comercial, já saberia qual seria a minha escolha – que é o motivo do texto por sinal.

Uma garotinha bonitinha, fofinha, que parece uma boneca, faz um caminho inteiro, sozinha, segurando na mão de um astronauta que flutua ao lado dela. Prova da qualidade da produção, deve ter sido difícil fazer um negócio desses – tecnicamente ficou perfeito. A garota e o seu amigo astronauta estão a caminho do banco Itaú, essa é a parte comercial. Ela entra numa agência, já sem o companheiro do lado, e coloca um livro numa caixa de papelão: o título é “Meu amigo astronauta”, com um desenho igual ao que acompanha a menina o tempo inteiro. O comercial, explica o narrador, é de uma campanha de arrecadação de livros para redistribuição entre crianças carentes. Corta a cena e aparece um garotinho lendo o livro – atrás dele, o astronauta.

Que “sacada”! Vejo naquele filme publicitário um valor simbólico muito grande. Entendo que o livro e a leitura são fundamentais para construir um país decente, sem querer soar piegas (inclusive votei no candidato à presidente que só tinha uma proposta, Cristovam Buarque). Há um tempo eu li uma matéria, da Veja, sobre como outros países emergentes conseguiram se consolidar no cenário internacional, passaram a produzir tecnologia e conhecimento e de por que o Brasil não conseguia fazer o mesmo. A resposta que a matéria oferecia era a educação – coisa intimamente ligada ao livro e a leitura. A outra parte do valor simbólico é a criança, responsável pelo sonho de um mundo melhor – novamente sem querer soar piegas. Ainda tem a mensagem de caridade, solidariedade e outros elementos que me marcaram menos.

Não sei porque fique encantado: pode ter sido a menininha, que realmente é muito bonitnha. Pode até não ser nada de mais – é só uma propaganda de um banco que, enquanto a pobreza cresce, bate recordes de lucro. Uma contradição frente a toda aquela simbologia, mas um assunto como esse demandaria muito tempo e informação que não tenho.

Então, the Oscar goes to “Meu amigo astronauta”!

P.S.: Claro que existem propagandas horríveis, algumas chegam a me dar raiva. Tem um comercial de carro realmente imbecil, sem "sacada" alguma: o texto é horrível, um homem de idade avançada tenta convencer um outro mais jovem (os dois tratados como sujeito indeterminado) de que carro é tudo igual enquanto o filme mostra as vantagens do carro; a música não me agrada e a "piada" é extremamente infeliz: dizendo que carro é tudo igual, afirma que ele só serve para levar passageiros (nesse ponto três mulheres bonitas entram no carro). A idéia que me passa é que o publicitário pensa que mulher é tudo igual - nada mais longe da verdade!

5.10.06

Singelo comentário...

Entendo que o Observatório da Imprensa (OI) é um instrumento importantíssimo para a manutenção da pouca liberdade midiática que há. Propõe observações críticas ao chamado quarto poder. É aí que começa o meu comentário.

Não quero ter a pretensão de desdizer jornalistas consagrados, experientes, com muito mais conhecimento que eu posso imaginar agora, na metade do curso de jornalismo. Mas não penso que a imprensa é o quarto poder, apesar de concordar que ela se acha o quarto poder (o que para mim é um problema). “É claro que a mídia influi. Ela é uma força política. É até mais. É uma instância de poder não eleita (...)”, escreveu Mauro Malin num artigo excelente publicado nesse OI no último dia 03/10 (leia o artigo).

Que a mídia influi, influi. Também é uma força política, como qualquer outra organização atuante com alguma voz. Mas que é mais, que é uma instância de poder, eu não concordo. Ela pode dar a notícia da forma que quer e até tem a capacidade de tirar um governo do poder – mas nunca faz isso sozinha. Quem citar o caso Collor eu respondo dizendo que a mídia, em primeiro lugar, foi a bala do revólver que provocou o impeachment – a arma é composta por variados setores da sociedade e o dedo que dispara é o grupo dos poderosos que se sentiram ameaçados ou lesados pelas safadezas do agora senador pelo estado de Alagoas – grande formadora de opinião.

A mídia não é o quarto poder coisa nenhuma e se fosse seria causa de revolta como são os escândalos de corrupção que ela tanto denuncia, pois estaria a serviço de poucos. A sua autonomia é virtual: a dependência da receita de anunciantes e da propaganda oficial não permite movimentos livres. Ou se permitisse a imprensa não teria feito oposição combativa e ferrenha a Lula, esforçando-se ao máximo para provocar e conseguir a sua queda? Outro indicador da falsa independência da mídia é a falta de pluralidade de informação – a dependência das fontes oficiais é gritante e o tom do noticiário, em geral, é o mesmo. A imprensa é uma massa sem forma.

No mínimo não deveria querer ser o quarto poder. O ponto é que quem detém alguma forma de poder quer usá-la em benefício próprio para manutenção desse poder, mesmo que tenha que se submeter a algumas coisas ou não ser o poder mais influente – o que Mauro deixa claro que não é o caso. É uma concepção maquiavélica, mas me parece pertinente, principalmente porque antes se submeter ao interesse público, à tarefa de auxiliá-lo no caminho da história, a imprensa deve se curvar diante dos interesses escusos dos mais poderosos, aos interesses dos grandes anunciantes e interesses individuais do patronato midiático. Querer ser o quarto poder, ou afirmar sê-lo, é incorrer em contradição.

Ser uma forma de poder é se colocar acima de alguma coisa, no comando de alguma coisa – e me parece que a última coisa que a imprensa quer é comandar o povo no sentido da luz, da verdade e isso anula a sua pretensão de ser de fato um poder. Afinal, dependente de tantas coisas ela não pode estar preocupada com o interesse público. Talvez esteja preocupara com o interesse do público, e esse “do” faz uma diferença gigantesca.

Manipula a informação a favor do patronato, dos poderosos, dos anunciantes, do mercado, da avó e do cachorro. Depois responde ao do povo. Se respondesse a ele antes dos outros quem sabe seria o quarto poder... A verdade é que a imprensa é frouxa, insegura e dependente – antes fosse combativa como foi um dia, fato que Mauro Malin também ressalta no seu artigo.

E não é raro escutar as pessoas falarem isso... Se ela, que deveria fazer parte do poder do povo, se constitui como um poder à parte é bom apertar os cintos – o piloto sumiu!

Esse texto rendeu uma boa discussão com o Galez, camarada que sempre entra em polêmicas intermináveis comigo e contribui muito com os textos. Depois da conversa fiquei com medo de colocar o texto aqui - ele me disse que tava cheio de buracos que eu tentei preencher revisando o texto. Mas o objetivo é a polêmica, comentem aí...

P.S.: Vlw Galez!

3.10.06

O que é TC?

Bom, hoje começo a série de postagens sobre a Teorica Crítica. Como disse, vou começar pela sua definição e início, com Karl Marx. O texto foi tirado do wikipedia:

"Teoria Crítica da Sociedade é o modelo de teoria que, contrapondo-se à Teoria Tradicional, de tipo cartesiano, busca unir teoria e prática, ou seja, incorporar ao pensamento tradicional dos filósofos uma tensão com o presente. A Teoria Crítica da Sociedade tem um início definido a partir de uma ensaio-manifesto, publicado por Max Horkheimer em 1937, intitulado "Teoria Tradicional e Teoria Crítica". Foi utilizada, criticada e superada por diversos pensadores e cientistas sociais, em face de sua própria construção como teoria, que é auto-crítica por definição. A Teoria Crítica é comumente associada à Escola de Frankfurt."

Quem quiser ler a caracterização e as propostas da TC é só clicar no link ou pesquisar mais na internet - aqui eu vou colocar apenas uma citação do "ensaio-manifesto", que está no mesmo link, bem auto explicativa:

"Em meu ensaio’Teoria Tradicional e Teoria Crítica’ apontei a diferença entre dois métodos gnosiológicos. Um foi fundamentado no Discours de la Méthode[Discurso sobre o Método], cujo jubileu de publicação se comemorou neste ano, e o outro, na crítica da economia política. A teoria em sentido tradicional, cartesiano, como a que se encontra em vigor em todas as ciências especializadas, organiza a experiência a base da formulação de questões que surgem em conexão com a reprodução da vida dentro da sociedade atual. Os sistemas das disciplinas contem os conhecimentos de tal forma que, sob circunstancias dadas, são aplicáveis ao maior número possível de ocasiões. A gênese social dos problemas, as situações reais, nas quais a ciência é empregada e os fins perseguidos em sua aplicação, são por ela mesma consideradas exteriores. – A teoria crítica da sociedade. ao contrário, tem como objeto os homens como produtores de todas as suas formas históricas de vida. As situações efetivas, nas quais a ciência se baseia, não é para ela uma coisa dada, cujo único problema estaria na mera constatação e previsão segundo as leis da probabilidade. O que é dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do homem sobre ela. Os objetos e a espécie de percepção, a formulação de questões e o sentido da resposta dão provas da atividade humana e do grau de seu poder." (Max Horkheimer, Filosofia e Teoria Crítica, 1968, em Textos Escolhidos, Coleção Os Pensadores, p. 163)

Agora que temos alguma noção bem básica, vou para o conteúdo da aula, dada por Marcos Nobre, do Curso Livre de Teoria Crítica do Instituto Goethe de São Paulo (confira aqui a programação do curso - arquivo PDF).

A TC teve como precursor“O Capital”, de Karl Marx. A obra lança a base da TC de que é preciso analisar o presente e o passado para entender como o mundo funciona para que seja possível estabelecer um movimento dialético no sentido da emancipação. Tratando do capitalismo e da sociedade industrial do século XIX, Marx faz um diagnóstico preciso e profundo do seu momento presente e, a partir dele, propõe uma organização econômica alternativa (infra-estreutura), e por consequência uma organização alternativa de todas as outras esferas sociais como a poítica e a ciência (superestrutura), ao capitalismo, baseada nos ideais dos socialistas utópicos.

A idéia aqui não é debater sobre o marxismo, mesmo porque não tenho competência para isso. Mas essa novidade que Marx trouxe veio da constatação de que faltava aos socialistas utópicos "sentido prático" - daí o conceito de práxis marxista: o movimento político, a ação política e a necessidade de unir a teoria à prática. Portanto seria difícil para os socialistas utópicos atingir o socialismo, pois o capitalismo é como erva daninha: abarca todas as áreas da atuação humana, por isso a sua análise crítica deve compreender todo o raio de atuação do homem na história, e destrói as formas tradicionais de dominação para estabelecer outras. Percebendo que esse modo de organização tem uma capacidade grande de adaptação, qualquer tentativa de construção de um sistema alternativo ao capitalismo fora dele é impossível.

Por isso é fundamental a análise do presente, para que os vetores sejam traçados de acordo com os eventuais obstáculos que a mudança pode oferecer e de acordo com as tendências de desenvolvimento do capitalismo e a ação no sentido da emancipação possa ser possível. Isso traz à TC a constante necessidade de atualização, depois da leitura do passado e dos fatores que construíram o presente, e ajuda a justificar a preferência dos seus autores por escrever ensaios, que tem caráter transitório e não fixo.

O que anotei da aula está condensado aí nesse texto, que dá uma idéia da onde a TC veio e dos seus princípios básicos. Entendo que estudar essa teoria é importantíssimo para qualquer pessoa que deseja se comprometer com a transformação do mundo - e é por isso que eu iniciei essa série de postagens!

A próxima será sobre Walter Benjamin e a arte na era da reprodutibilidade técnica! Até lá!

2.10.06

Teoria Crítica

Bom, como ando com pouco tempo pra sentar e escrever algum texto, vou começar uma série de postagens relacionadas à Teoria Crítica. Iniciada por Marx e sua análise do capitalismo, a Teoria Crítica (a partir de agora TC) tem seus expoentes concentrados na Escola de Frankfurt: Marcuse, Adorno, Horkheimer, Pollock, Habermas, Benjamim e outros.

Esses posts vão ser publicados da seguinte maneira: baseados no Curso Livre de TC do Instituto Goethe, vão acompanhar as aulas (realizadas todas segundas-feira) e colocar a biografia de cada autor tratado para em seguida eu desenvolver algum pensamento baseado nas minhas anotações das palestras. Claro que o primeiro post vai ser sobre o contexto em que a TC se desenvolveu, sua importância e o início de sua tradição com O Capital, de Karl Marx.

Penso ser fundamental conhecer a TC, principalmente para um estudante de jornalismo como eu!

Então, até o próximo post...

1.10.06

Pensamento sobre o debate do dia 28/09

O sentimento que esse debate a presidência provocou em mim foi de vazio. Primeiro e não menos importante, os candidatos chamados de “nanicos” não foram convidados a comparecer pela empresa que organizou o debate. É algo óbvio saber que eles não têm reais chances de vencer o pleito, mas o propósito do debate é justamente debater idéias para construir de forma real o processo democrático. É uma falta de “sentimento”, “espírito” democrático muito grande da empresa. Ou uma falta de compromisso incrível, como diz minha mãe quando me dá alguma bronca. Tivessem sido convocados para o debate ao menos para atacar o presidente suspeito de corrupção.

(Há quem possa dizer que isso iria empobrecer o debate por não otimizar o pouco tempo disponível para explorar melhor os candidatos com “reais” chances de vitória. Mas como enriquecer um debate que é feito depois da novela das nove, num horário que ninguém assiste?)

Em segundo lugar, e ainda mais sensível, é a ausência de Lula. Ora, ele foi convidado e o mínimo que o presidente deveria ter feito era comparecer ao evento para prestar alguma explicação pro povo (tudo bem que o eleitorado dele não deve assistir a debates na TV, mas nós, apesar de tudo, fazemos parte do povo). Deixar os adversários baterem a vontade por achar que já está reeleito também atesta descaso, ou culpa, e permitir o clima golpista é covardia – afinal ele não evoca sempre o nome da democracia para se defender?

A sorte do candidato do PT é que o seu principal adversário, antes de qualquer problema, é uma pessoa sem... Como dizer? Estrela? Ou, como costumam dizer os engraçadinhos, por que ele parece um picolé de chuchu? Além desse problema, e isso penso ser uma coisa mais minha do que dos outros, ele não apresenta nenhuma proposta elaborada, não responde a nenhuma pergunta sem generalizações. Não quero dizer com isso que ele é pior que os outros – na verdade, todos são iguais. “A diferença entre os candidatos é apenas adjetiva e não estrutural”, como diria Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL – o único que parece ter capacidade e coragem de provocar o debater de idéias.

O que esperamos de alguém que não apela para baixarias é que ele responda com classe às perguntas, que demonstre a sua pretensa “erudição” e exiba seu diploma. Essa situação desperta em mim, e creio que em outros, a descrença e isso me leva a considerar votar nos candidatos “alternativos”. No homem da educação ou numa mulher combativa, com garra e que não iria conseguir emplacar nenhuma proposta – a governabilidade é um fator chave no jogo político e alguns desconsideram isso. “Pelo menos ela fala alguma coisa”, penso de mim pra mim de vez em quando.

Esse debate morno e de, por que não, baixo nível, foi um bode. Um morde e assopra danado – deveria ter ido dormir no meu horário normal e ler a edição turva da imprensa no dia seguinte. É realmente foda quando nos desencantamos do mundo...